Satélite e Espectro, o Dueto inseparável - II

João Carlos Pinheiro da Fonseca

O “4º Spectrum Day (Dia do Espectro)” do Chapter SSPI Brazil, em 16.08.2012, no Hotel Florida no Rio de Janeiro focou a questão do espectro, o ambiente regulatório, a tecnologia e a prevenção de interferências, no ambiente satelital. Servindo de pano de fundo, os megaeventos internacionais da área de esportes que o país hospedará daqui a dois e quatro anos: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Aqui 2ª e última parte da matéria

Convivência em 3.5 GHz - um Desafio

Com o título sugestivo “A Luta Continua”, os palestrantes Paulo Bertram, da Star One e Leonardo Chaves, da TV Globo, enfocaram o espectro na banda de 3.5GHz. Radiodifusores e operadores satelitais convergem quanto à importância da Banda C para as suas atividades. Lembraram os palestrantes que, ao final de 2008, foi alocada a faixa de 3.5 GHz para banda larga e para WiMax - worldwide interoperability for microwave access.

As estações terrenas operando na Banda C (3.6 a 4.2 GHz) notaram interferências radioelétricas na recepção de seus sinais. Redes corporativas via satélite e a recepção de televisão por parabólicas – TVROs (television receive-only) foram afetadas.

Na Consulta Pública nº 23/2011 da Anatel foram introduzidas alterações no uso da faixa de 3.5 GHz. Em linhas gerais, os serviços SCM (multimídia) e STFC (fixo comutado) foram mantidos e o SMP (móvel pessoal) foi acrescido. Comentaram os palestrantes que o Edital para 3.5 GHz gerou dois cenários: “redestinação” e “convivência”de frequências.

O assunto das interferências foi objeto de testes práticos. Em 2009, no Centro de Referência Tecnológico da Embratel, na Ilha do Fundão (RJ) com a presença do INT – Instituto Nacional de Tecnologia, vinculado ao MCTI (ciência, tecnologia, inovação) foram efetuados testes de interferências envolvendo sistemas WiMax e TVROs. Testes adicionais foram efetuados no CPqD - Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, em Campinas (SP).

Os resultados convergiram. Em distâncias abaixo de 50 m a 460 m, o potencial interferente do WiMax passa a afetar a comunicação satelital em Banda C. Em 23.03.12, na Anatel, reuniram-se representantes dos operadores de radiodifusão e de telecomunicações por satélite.

Num 1º subgrupo, foi proposto pela ABERT – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão a solução “convivência”. Envolve um rearranjo na faixa 3,5 GHz. A banda larga sem fio (WiMax) migraria para (3,3-3.5 GHz) e não ficaria mais contígua com a banda C (3.6-4.2GHz). Um 2º subgrupo propôs a solução “redestinação”, com a utilização de um espaço de guarda de 25 MHz entre os sinais.

Pelas leis da física, o sinal do satélite geoestacionario, pela grande distância (36 mil km) que percorre no espaço livre, chega débil em terra (-105 dB a - 84 dB) onde é recuperado pela parabólica e por detectores extremamente sensíveis. Estes ficam “saturados” – entopem – se alguma interferência for acima de - 64 dB. Foi desenvolvido um modelo de interferência, em computador, que utiliza critérios de convívio. Comentou o palestrante Paulo Bertram: “agora é possível simular várias situações, urbanas, semi-urbana e rurais com a maior facilidade”.

O segundo palestrante, Leonardo Chaves, da TV Globo, exaltou a importância da banda C. Ela é a base do modelo de negócio da radiodifusão no Brasil. A banda C tem uso profissional, na radiodifusão e para telecomunicações. No âmbito doméstico é ela que carreia para as TVROs (as famosas parabólicas), “informação, entretenimento e cultura gratuitamente a 22 milhões de domicílios brasileiros”.

O palestrante da TV Globo fez um retrospecto das condições de uso da Faixa de 3.5 GHz. A Resolução nº 416 (14.10.05) destinou a faixa aos serviços STFC (fixo comutado) e SCM (multimídia). Em 2010, a Resolução nº 537 (17.02.10) abriu a faixa para o SMP (móvel pessoal) e SLP (limitado privado) para os órgãos do governo.

A equipe técnica da TV Globo conduziu experimentos sobre interferências na área do Projac (projeto Jacarepaguá), no Rio de Janeiro. Chegou a conclusões semelhantes a de seu colegas das telecomunicações. Para a boa convivência, “WiMax - TVROs” , a distancia mínima de uma estação radiobase (ERB) deve ser de 400 m (2w de potência); 550 m (4 w); e 1,5 km (30 w).

“A Banda C, no Brasil, é o modelo de negócios da radiodifusão”, percutiu Leonardo Chaves “qualquer coisa que mexer com ela afeta a radiodifusão”. Dos 22 milhões de domicílios atendidos pela TVRO, em todo território nacional as classe econômicas D/F representam 36% do total; C (30%); B (31%); e A (26%).

A procura por espectro é mundial

Em relação ao panorama mundial de frequências, Edio Gomes, da Hispamar discorreu sobre a WRC-12 e WRC-15; e Flavio da Silva, da Hughes, sobre o denominado Apêndice 30 e 30 A. A luta por espectro e por posições orbitais é mundial é considerado da maior importância para os países.

A UIT União Internacional de Telecomunicações reúne a cada três ou quatro anos representantes de todos os Estados-Membros para discutir e acertar as regras para o uso do espectro radioelétrico. O assunto não é neutro. Um erro pode causar atrasos irreparáveis na implantação de novas tecnologias concorrentes além de interferências radioelétricas indesejáveis.

A WRC-12 - World Radiocommunication Conference 2012 teve como grandes vetores, a revisão do espectro, frente à chegada das redes de nova geração; o dividendo digital, isto é a liberação de faixa, pela chegada da televisão digital; a questão da segurança no transporte marítimo e aeronáutico; e a identificação de espectro adicional para uso científico, meteorológico e para defesa do meio ambiente.

Edio Gomes explicou, de maneira sucinta, como decorre o fluxo das propostas dos Estados Membros (são 163) da UIT - União Internacional de Telecomunicações e de organismos regionais (6) e observadores (102). Frente à magnitude da tarefa da WRC-12, a UIT promoveu uma conferência preparatória (CPM-11), no ano anterior (14 a 25.02.11).

Os dados da WRC-12 impressionam. Foram 3060 participantes, de vários matizes e interesses, econômicos e geopolíticos, que se movimentaram para analisar e debater um total de 2992 propostas e 1.615 documentos, relativos à atribuição do espectro radioelétrico. Uma tarefa hercúlea, frente ao tempo disponível de 23.01 a 17.02 de 2012.

Dentre outros itens, o palestrante Edio Gomes falou do item 1.25 da WRC-12 que trata da alocação de espectro para o MSS (serviço móvel via satélite). Resoluções sobre a faixa de 22 a 26 GHz para o MSS foram remetidas para a próxima WRC-15, que ocorre daqui a três anos. Na WRC-12, discutiu-se o uso de frequências satelitais para os VANTs- veículos aéreos não tripulados. Já se acena para VANTs de uso comercial, comandados via satélite, que vão exigir alta fiabilidade em suas comunicações.

O palestrante Edio Gomes comentou que será preciso ficar atento, na arena das Américas – região 2 da UIT -- na defesa do uso das frequências satelitais na Banda C. No caso do Brasil, o alto regime de chuvas na região amazônica, favorece a utilização dessa faixa.

A seguir, Flavio da Silva mostrou a importância do Apêndice 30/30 A da UIT que trata dos regulamentos que se aplicam aos serviços de radiodifusão por satélite (BSS). As posições orbitais, canais e frequências, para as Américas foram discutidos na (RARC-83) e na (WARC-ORB 85) da UIT. As posições orbitais brasileiras que constam do plano, para a Região 2, se encontram na longitude Oeste, a 45º, 64º, 74º, 81º e 102º.

Destacou o palestrante que os planos do Apêndice 30/30 A para a banda Ku foram elaboradas especificamente para o serviço de radiodifusão por satélite. Cada Administração, com direito aos planos do Apêndice, tem posições orbitais exclusivas para a cobertura de seu território. A separação orbital, entre artefatos, é suficiente para a recepção em terra, com antenas de pequeno porte (em torno de 45 cm).

Na banda “Ku-padrão”, a separação orbital mínima entre artefatos é de 2º, ao passo que na “Ku- Apêndice 30/30” sobe para 7º. Satélites mais espaçados podem emitir sinais com mais potência e isso é uma vantagem. Com a “Ku-padrão” , isto é espaçamento de 2º, o sinal emitido é mais fraco – a fim de não interferir no artefato adjacente – e a antena parabólica em terra precisa ser maior (acima de 90 cm). Usando a banda “Ku- 30/30 A”, o satélite emite com mais potência e a parabólica, em terra, basta ter apenas cerca de 45 cm, uma grande vantagem.

Não é de estranhar que no último leilão da Anatel, uma posição orbital “Ku - 30/30 A” tenha alcançado um recorde de preço, justificou Flávio Silva . Nas Américas, o serviço BBS (Broadcasting Satellite Service) se reparte entre três prestadoras. São elas: Direct TV, Dish Network, Bell Tv, , respectivamente, com 20 mihões, 14 milhões e 2 milhões de assinantes. As posições orbitais da DiretTv são 101ºW, 103ºW, 110ºW, 119ºW; da Dish Networks, 61,5ºW. 77ºW, 110ºW, 119ºW, 129ºW; e da Bell tv, 72.7ºW, 82ºW, 91,0ºW.

Combate à interferência

O “Frequency Day” terminou com palestrantes tratando da identificação e combate às interferências radioelétricas. Interferências não têm necessariamente uma causa maliciosa. O barateamento do custo das VSAT, a não aderência a padrões de qualidade, a instalação pouco qualificada, propiciam interferências. A indústria reagiu criando o Satellite Interference Reduction Group (sIRG).

Martin Coleman, da sIRG, falou de Londres (UK), ao vivo, para o seminário da SSPI. Enfatizou a importância de que toda a emissão rádio deve possuir uma Carrier Identification (CDI) – assinatura eletrônica – que pode ser autenticada numa base de dados compartilhada. Lembrou que nenhum vídeo foi transmitido de Londres, nos Jogos Olímpicos 2012, sem estar munido de seu respectivo CDI.

Ventura Rufino, da Novella Satcoms, vendeu a imagem da empresa especializada em equipamentos para estações terrenas, de alta tradição. Queixou-se que há falta mundial de expertise em técnicas tradicionais para a produção de componentes de RF. Com a chegada das técnicas digitais, os melhores cérebros parecem migrar para as tecnologias de codificação e decodificação de sinais valendo-se da eletrônica de alta integração, algo que julgam talvez mais sexy, alfinetou Ventura rufino.

O fundador da Novella Satcom, aproveitou para mostrar seu receptor de rastreio de satélite e dizer que a técnica tradicional de PLL (phase lock loop) é mais simples que a versão digital que é baseada na utilização de software e de processadores de sinais.

Rchard Perguson, da Crystal Solution, empresa tradicional no monitoramento de espectro, mostrou sua solução sistêmica que capta dados e em casos de interferências permite sua rápida análise e identificação. O sistema é baseado em software e é capaz de monitorar uma grande quantidade de pontos, em tempo real.

Foi apresentado um case study de um Centro de Gerenciamento de Banda, de uma grande operadora satelital. A solução mostrada faz a varredura sistemática, a cada 30 minutos, em centenas de canais envolvendo seis sites espalhados pelo mundo e mostra num display múltiplo, a identificação e outras características de cada sinal.

Cristovam Nascimento, da Unisat, empresa especializada em consultoria e treinamento profissional em telecomunicações, televisão, redes e internet e representante do GVF (Global VSAT Forum) ressaltou a importância do treinamento e da certificação de instaladores – um trabalho que requer um konw how especializado – na diminuição de interferências.

A programação técnica do Frequency Day se encerrou com Marcelo Tavares, da Hispamar, proferindo palestra sobre aprovações de tipos de antenas. Ao final do encontro, houve sorteio de brindes e a tradicional happy hour de congraçamento. (J.C.F)

Que é a SSPI

A SSPI - Society of Satellite Professionals International está presente no Rio de Janeiro, Brasil, há três anos, por meio da SSPI Brasil que é Brazilian Chapter da SSPI. Em 2008, foi criada a APSAT (Associação dps Profissionais de Satélites do Brasil), filiada à SSPI. No Brasil, dirigem (08-14) a SSPI : PR, Mauro Wajnberg (Star One); VP, Guilherme Saraiva (Globosat); Tesoureiro José Edio Gomes (Hispamar); e diretor, Edson Meira (Telesat). Os membros da SSPI atuam em comunicações via satélite, broadcast, observação da terra, sensoriamento remoto, geo-posicionamento, ciências espaciais e no mundo acadêmico. Na SSPI são dez grupos de trabalho, os Chapters (Capítulos), integrando mais de 2.200 membros de 34 países. No Brasil, são cerca de 200 membros.

Destina-se a SSPI: “servir aos profissionais da indústria de satélites, durante toda sua vida profissional, promovendo o desenvolvimento individual, o networking e o reconhecimento profissional dos que se destacam”. Keith Buckley (2012) é CEO (chief executive officer) do Conselho Diretor mundial da SSPI, sediado em Nova Iorque (EUA). A fundação da SSPI, data de 1983: “uma dúzia de visionários reunidos, num café mexicano em Denver (Co), querendo promover o desenvolvimento de profissionais da nascente indústria satelital”, relembra Joseph Pelton, professor-pesquisador da George Whasington University.