Empresário Luiz Garcia fala aos jovens, na ACRJ, sobre como e por que ser empreendedor

No auditório Ruy Barreto – nome de empreendedor cafeeiro – da Associação Comercial do Rio de Janeiro, no dia 27 de março último, o presidente do Conselho de Administração do Grupo Algar, engenheiro Luiz Alberto Garcia, proferiu palestra sobre "Empreendedorismo". Atendeu a convite de outro empreendedor: Olavo Monteiro de Carvalho, reeleito para presidir a quase bicentenária entidade criada em 1809.

O evento teve como platéia os integrantes dos Conselhos Empresariais de Telecomunicações da ACRJ, presidido pelo economista Luiz Schymura (dirige o Ibre da FGV-RJ) e de Jovens Empreendedores, sob direção de Eduardo Augusto Machado (diretor da Central de Atendimento e Serviços Ltda.), empossado na ocasião. O Conselho de Jovens Empreendedores da ACRJ tem 37 membros, incluindo profissionais liberais, jovens executivos, professores e empreendedores.

O diferencial para sobreviver

"O diferencial para sobreviver será oferecer o melhor serviço ao usuário. A solução quem a pede, hoje, é o cliente. O diferencial é como tratar o cliente; numa época de tecnologia fácil, o core business vai ser substituído pelo core competence", ensinou o presidente do grupo Algar, que tem especialização pelo Owner and President Management Program, da Universidade de Harvard.

Dirigindo-se aos jovens empreendedores, Luiz Alberto Garcia, em tom simples e direto, percorrendo um tablado com um microfone na mão, pregou que a hora do novo empreendedor é agora ou nunca. "Tenho receio que estejamos na época dos rinocerontes. Hoje, graças ao progresso tecnológico, há um extenso campo para mudanças e oportunidades".

Preso aos valores familiares, historiou Luiz Garcia a gênese do grupo Algar, com sede em Uberlândia (MG). O pai, comendador Alexandrino Garcia, um empreendedor na área de agribusiness (beneficiamento de arroz) e no setor automotivo, aos 56 anos, a guisa de aposentadoria, foi ser presidente da Associação Comercial da cidade, centrada no triângulo mineiro. Luiz Garcia referiu-se a seu irmão (falecido), "empreendedor com tino comercial". Os negócios em Uberlândia se ressentiam, nos anos 50, da falta de boas comunicações. Em 1954, nascia a empresa telefônica, hoje CTBC (Companhia Telefônica do Brasil Central).

O Brasil, em meados do século XX, tinha cerca de 2 mil empresas telefônicas, mais ou menos conectadas. Da época, só restaram a CTBC, de Uberlândia (MG); e a Sercomtel, de Londrina (PR). Com a chegada do Sistema Telebrás, a hoje CTBC sofreu todo tipo de pressão: “olha, daqui a pouco ela não vai valer mais nada. É melhor vendê-la logo", confidenciou o palestrante. Com senso de humor, disse Luiz Garcia que hoje a história se repete com a possível fusão da Oi com a Brasil Telecom, passando o recado que a CTBC não esteve e nem está em oferta.

O empresário constatou que no setor de telecomunicações, graças ao barateamento da tecnologia eletrônica – virou uma commodity – começam a brotar novos empresários. Citou a cidade de Nova Friburgo (RJ), onde um jovem engenheiro da PUC-Rio "conseguiu colocar os preços das telecomunicações lá embaixo".

No campo dos negócios, mostrou o palestrante como é importante ao empreendedor saber se reciclar frente a novos ventos e ficar aberto às mudanças que ocorrem no mundo. De seu portfólio de business cases, lembrou o empresário o caso de um fabricante, líder na área de mesa de sinuca nos EUA, desde 1800. A empresa começou a perder terreno para um novo jogo – boliche . A empresa reciclou-se e, hoje, é dona da Envirude, de motor de popa e barcos. Outro exemplo foi a dos chapéus de feltro Prada, em Campinas (SP), que passou a fazer forração de automóveis valendo-se do boom da indústria automobilística, no estado.

O grupo Algar

Luiz Garcia apresentou o Grupo Algar. Criado em 1954 e com sede em Uberlândia (MG). Já chegou a um patamar de faturamento de US$ 1 bilhão (R$ 2,4 bilhões). O grupo tem 14.100 colaboradores. Tem Programa de Geração de Idéias e um Banco de Idéias. O florão do grupo Algar (de Alexandrino Garcia) é a operadora de telecomunicações CTBC. O grupo estendeu seu agronegócio até o Maranhão. No turismo, tem a Pousada do Rio Quente (GO), além de serviços de infra-estrutura que suportam o grupo e que são gerenciados como negócio rentável.

Em primeira mão, Luiz Garcia mostrou o novo organograma do grupo, incluindo a Algar Telecom, o Agro Serviços, o Instituto Algar e a UniAlgar (por ora só para os colaboradores do grupo). O palestrante passou a seguir uma série de slides, "que eu não preparei", comentou com verve e entusiasmo.

As qualidades do empreendedor

O empreendedor tem que ficar entre o realista e o idealista. É verdade que cada nova máquina desloca mão de obra. Esta mão de obra precisa ser treinada para novos talentos, com perspectivas de uma maior renda.

São critérios para o sucesso do empreendedorismo: liderança (essencial), saber gerenciar talentos (também essencial), criar a cultura do alto desempenho e dar treinamento (diário). No item compensação, não é só treinar. É preciso, também, remunerar, despertou sorrisos de satisfação na jovem platéia.

E onde estão os talentos? Uma pesquisa mostrou, por ordem de prioridade, que eles se encontram na própria organização. Mas, pode-se recrutar na concorrência, nas escolas de primeira linha, no exterior e até recrutar de clientes. "Quem nunca tira férias, nunca relaxa, só pensa no trabalho e deve ir embora da organização. Esse profissional não está obtendo sucesso", observou realisticamente o empresário Luiz Garcia.

“Hoje, na época do conhecimento – que sucedeu às épocas do trabalho agrícola e industrial –, a hierarquia rígida mudou. Todo mundo precisa saber trabalhar em rede. O ambiente de trabalho precisa ser democrático e participativo. Todo mundo deve falar com todo mundo. Mas, na hora de decidir, só um decide”, lembrou o palestrante.

O outsourcing é uma realidade (fazer fora o que não é a competência da empresa). O off shore, hoje, se traduz pela procura nos países onde a mão de obra é mais barata. No mundo, o ambiente de trabalho mudou. Os robôs e os processos automatizados requerem menos pessoal, porém com maior qualificação e mais bem remunerados. No entanto, o choque do futuro traz consigo os seus perigos. Quem não estiver preparado fica fragilizado. Pode cair em depressão.

Há um outro lado da moeda. Uma pesquisa mostrou que 84% dos executivos estão infelizes; 76% acessam e-mails fora do horário de trabalho; 54% estão insatisfeitos com a vida pessoal que levam; e 40% das mulheres executivas optam por não ter filhos por dedicação exclusiva à própria da carreira (as mulheres já representam 50% da força de trabalho).

Garcia, depois de comentar com humor ser do tempo em que se ensinava que “comunista comia criancinhas”, voltou de uma recente viagem ao Vietnã e deu seu depoimento:

"Lá, continua sendo um país de terceiro mundo. Porém, não vi miséria. Não vi pedintes. Não vi subnutridos".

Sobre desafios do empreendedor, citou o palestrante que ele precisa ter conhecimento, habilidade e atitude. “Sair na frente e saber arriscar faz ganhar negócios. Tem gente muito conservadora. Não quer arriscar nem o dinheiro do patrão”. Ao tratar do tema da aposentadoria, revelou o palestrante com um toque mineiro que, "em termos pessoais, vou continuar trabalhando. Sairei do mundo do trabalho, mas só aos pouquinhos".

Debate

Com sabedoria, voz da experiência e verve, discorreu o palestrante sobre o tema empreendedorismo. Qual o melhor trabalho para você? É onde você teria o seu hobby. Uma coisa boa é abraçar a idéia de uma formação continuada. Os MBs (Master in Business) constituem uma boa oportunidade. Falar uma língua estrangeira ajuda. Está na hora de estudar mandarim (o efeito China está aí). É preciso ter foco. Você tem que ser bom em alguma coisa.

Abraçando a tese que o dinâmico pode ser superior ao estático, Luiz Garcia lembrou um ditado que lhe ensinava o seu pai Alexandrino: “não fique à toa, ande à toa”. Viajar é importante (Luiz Garcia é um grande viajor). O bom empreendedor precisa manter uma visão do seu negócio com equilíbrio emocional e com uma razoável rede de conhecimentos. Ter idéias e colocá-las em prática é importante. Em Belo Horizonte, um empreendedor lançou o serviço “Personnal Car”. O serviço consiste em limpar, manter e abastecer o carro. O dono do carro só usufrui do veículo. Tem dezena de clientes.

Tecnologia é importante. O Brasil tem tecnologia. A Embrapa “é algo extraordinário”, com a cultura da inovação. O CPqD (ele foi membro do Conselho) é um celeiro de inovação em telecomunicações. Luiz Garcia, respondendo a uma pergunta, revelou ser favorável ao estabelecimento de um trem bala (alta velocidade) entre Rio e São Paulo e não entende como isso ainda não aconteceu.

Há organizações como Itaú, Odebrecht e WEG que já saíram das fronteiras do País. Por que o grupo Algar não está no exterior? “Pode ser uma falha de nosso grupo”, admitiu com simplicidade o presidente Luiz Garcia.

O recado final do palestrante sobre ser empreendedor: “tem que trabalhar e acreditar no que está fazendo. É preciso ir para frente e não olhar para trás”.

A palestra se encerrou com um excelente vídeo institucional da CTBC que mostrou “o Brasil da Paula, da Fernanda, da Bruna e de outros”.