Forte 2007, da FEBRATEL, discute no Rio de Janeiro fator trabalho na Sociedade da Informação – IV
04/12 14:02 :: João Carlos Fonseca :: Artigos
A Federação Brasileira de Telecomunicações – FEBRATEL – promoveu, no Hotel Pestana, no Rio de Janeiro, no dia 21 de novembro último, o Fórum de Relações do Trabalho – FORTE 2007 com o tema “O Trabalho requerido pelo Brasil no contexto do BRICS”. Presentes: políticos e autoridades do mundo acadêmico e sindical, além da imprensa. Cinco apresentações, dois keynote speakers e dois painéis marcaram o evento. Neste bloco, matéria com José Eduardo Cassiolato, da UFRJ, analisando o setor de TICs no Brasil comparativamente ao da China e debates com a platéia.
José Eduardo Cassiolato tem pós-doutorado em Economia pela Universidade Pierre Mendes, na França, e é doutor-mestre, também em Economia, pela Universidade de Sussex, na Inglaterra. Hoje coordena o projeto BRICS no Brsil, do Instituo de Economia (IE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde é professor associado. É autor de trabalhos técnicos, atuando ainda como professor-orientador.
O palestrante José Cassiolato elegeu para o FORTE 2007 o tema “Trabalho Inovação e Competitividade para o B dos BRICS”. A inovação tem forte impacto na nova sociedade globalizada como geradora de empregos qualificados. Trouxe exemplos da China, Espanha e Brasil.
Globalização e desintegração da produção
A desintegração da produção em “tarefas” geograficamente separadas foi demonstrada com o case da boneca “Barbie”, para cuja produção Taiwan e Japão fornecem a matéria-prima e o molde, e as tintas vêm dos EUA. A China entra com o trabalho e com algodão. A boneca sai de Hong Kong para os EUA por US$ 2, dos quais apenas U$ 0,35 cobrem o trabalho chinês.
Explicou o palestrante que os estados nacionais continuam existindo com a globalização. Houve um aumento dos fluxos intersetoriais e intranacionais, ainda intermediados por políticas nacionais. Os mecanismos de inovação também se alteraram. O caso da boneca Barbie é emblemático. A China montava a boneca, entrando com sua mão-de-obra barata. Acrescentava pouco valor ao produto. O valor da produção era acrescido fora da China.
Mas, a situação pode estar mudando. No ano 2000, aquele país importava US$ 50 bilhões em eletrônicos e exportava a mesma quantia. Em 2006, importou US$ 225 bilhões e exportou US$ 300 bilhões em eletrônicos. Agregou 25% em valor. A microeletrônica é uma área altamente intensiva em atividades de P&D. A China está aprendendo o caminho da tecnologia.
Outro exemplo da globalização é o da indústria de software, que o especialista José Cassiolato dividiu em nove estágios – proposta técnica, especificações, análise de sistemas, protótipo, projeto do sistema, implementação, teste, instalação e manutenção. Os seis primeiros estágios, mais sofisticados e core do negócio, geram mais valor. Os estágios de teste, instalação e manutenção geram menos valor.
A Índia, um país emergente, se inseriu na globalização de software nas fases de menor valor agregado, através de fábricas de sotfware. O grande produto da Índia, no entanto, são os indianos qualificados e formados nas melhores universidades do mundo. Sua remuneração, fora da Índia, já é maior que as exportações de software no País. Canadá, Índia e Irlanda são grandes produtores e exportadores de software. Já Brasil e China produzem software, porém, privilegiam o mercado interno.
O case Telefónica
Outro case descrito pelo palestrante foi o do Arranjo Produtivo Local (APL), do distrito eletrônico em Madri (Espanha), e a reformulação do monopólio de telefonia na Espanha. Segundo fontes internacionais, “a APL de Madri foi uma iniciativa de sucesso tendo gerado, em 2001, um valor adicionado de US$ 18 bilhões. A título comparativo, a Nokia (na Finlândia), em 1998, teve um valor adicionado de US$ 11 bilhões".
Em termos de emprego, o distrito eletrônico de Madri, com 22,3 mil trabalhadores, equivale ao distrito eletrônico de Londres (Reino Unido). A Telefónica de España absorveu 85% das vendas domésticas e a grande maioria de produtos de telecomunicações produzida no APL madrilenho.
Os provedores da Telefónica e a associação representando a indústria eletrônica do pólo de Madri fizeram lobby junto ao Governo espanhol a favor da operadora. O Governo espanhol financiou, em termos favoráveis, tanto os provedores quanto a Telefónica visando promover o esforço de exportação e de uma eventual internacionalização da produção.
Uma sub-rede de empresas, aninhadas no distrito eletrônico de Madri, se dedicou a atividades de P&D. Tais atividades de pesquisa e desenvolvimento alavancaram a expansão internacional da Telefónica, ao proverem soluções adaptando tecnologias. A TID (a unidade de P&D da Telefónica) e suas subcontratadas formaram um grupo em que a confiança, os relacionamentos pessoais a longo termo e objetivos tecnológicos comuns desempenharam importante papel. A maior parte das empresas do APL de Madri praticam a inovação de produtos (que gera emprego) e não de sistemas (que promove o desemprego)”.
O case Brasil
O economista José Cassiolato enfocou o case “equipamentos telecom” no Brasil. No começo dos anos 90, o pólo de equipamentos de telecomunicações, em Campinas (SP) – liderado pelo CPqD –, tinha aproximadamente 40 empresas e empregavam aproximadamente seis mil pessoas. Passados 15 anos, na grande Campinas restaram 19 empresas com 4.575 empregados.
Segundo dados de 2005, o Brasil despendeu na área de fabricação de equipamentos de telecomunicações US$ 1 milhão em atividades inovativas. Nelas incluídas coisas tais como atividades internas de pesquisa e desenvolvimento (US$ 211 mil), aquisição externa de P&D, aquisição de outros conhecimentos externos, de máquinas, equipamentos e software (US$ 530 mil), treinamento, introdução das inovações tecnológicas no mercado (US$ 117 mil), projeto industrial e outras preparações técnicas.
Em contraposição, a empresa chinesa Lenovo, resultado da aquisição em 2005 da divisão de computadores pessoais da IBM (1981) pelo grupo Lenovo, com origens na chinesa Legend (1984), formada por 11 cientistas de computação em Pequim (ou Beijing), investiu US$ 1 bilhão em atividades de P&D, equivalentes a US$ 4 bilhões, se fosse nos EUA.
Numa comparação entre Brasil e Espanha, com dados de 2000 a 2003, no tocante a distribuição dos gastos em inovação na indústria de equipamentos de telecomunicações, emergiu o quadro que a Espanha investe mais de três quartos desses gastos em P&D interna de produtos e o Brasil, cerca de um terço e outro terço em aquisição de máquinas e equipamentos de processos.
A indústria de telecomunicações no mundo
O pesquisador da UFRJ destacou, a dados de 2003, o percentual do faturamento investido em atividades de P&D dos principais fornecedores de equipamentos de telecomunicações. Ericssson (24%), Lucent (21%), Nortel (21%), Cisco (17%), Motorola (14,5%), Nokia (12%), Alcatel (13%), Siemens (11%), Fujitsu (6%) e NEC (6%).
Em termos absolutos, o investimento em P&D por empresa, em bilhões de dólares, foi de Nokia (4,6 bi), Motorola (3,8 bi), Ericssson (3,6 bi), Cisco (3,1 bi), Alcatel (2,5 bi), NEC (2,5 bi), Fujitsu (2,4 bi), Lucent (1,8 bi), Nortel (2,0 bi) e Siemens (943 milhões).
De modo semelhante, as grandes operadoras de telecomunicações do mundo investem um percentual de seu faturamento em atividades de P&D, tais como (dados de 2006) NTT (2,9%), Koreia Telecom (2,3%), France Telecom (1,5%), Telefónica (1,4%), Telia (1,3%) equivalente, em bilhões de dólares, a NTT (2,9 bi), Koreia Telecom (2,5 bi), France Telecom (755 mi), Telefónica (666 mi) e Telia (385 mi).
Prosseguindo com sua exposição, José Cassiolato registrou o número de pessoas ocupadas nas atividades de P&D, na fabricação de aparelhos e equipamentos de comunicações no Brasil. Em 2005, analisadas 110 empresas que empregavam um total de 2,1 mil pessoas (80% de nível superior), resultaram numa média de 15 profissionais dedicados a P&D por empresa. A seguir, exemplificou por contraste o total de pessoas dedicadas à atividade de P&D na Huawei chinesa que, em 2006, foi de 28,8 mil pessoas, representando 40% do total de empregados.
No ranking de vendas de empresas fornecedoras de equipamentos de telecomunicações para as empresas operadoras, a classificação, baseada em dados de 2006, é Ericsson e Nokia-Siemens, na faixa acima de US$ 20 bilhões; Alcatel-Lucent, acima de US$ 15 bilhões; Nortel, Cisco, Huawey (chinesa), Motorola na faixa de US$ 5 bi a US$ 10 bilhões; e ZTE (chinesa). A Lenovo já abocanha 36% do mercado de US$ 4,7 bilhões da exportação de computadores pessoais, suplantando a HP (1,4%), a Founder (12%), a Dell (8,4%) e a Tshingua Tongfang (6,8%).
A China encara as atividades de P&D com seriedade, é o que revelam os números. Na última década, dobrou o número de pesquisadores e que hoje representa cerca de 300 milhões de homens/ano e sextuplicaram os investimentos em P&D que hoje alcançam US$ 41 bilhões. Fazendo uma imagem, disse o palestrante que as empresas chinesas Huawey (telecomunicações) e Lenovo (computadores) competem “nas Olimpíadas de Pequim 2008”.
Inovação e cultura
“Inovação não é apenas a atividade de P&D nos laboratórios. É também o que acontece no chão de fábrica”, lembrou Cassiolato. “É a cultura e o saber que estão distribuídos pela sociedade”. O Brasil é um país que, por longo tempo, não teve universidades. Somente no século XX surgiu a primeira universidade criada pelo Governo federal. Foi no Rio de Janeiro, em 1920, aglutinando as Escolas Politécnica de Medicina e de Direito já existentes.
O Brasil, nas grandes linhas, tende a manter o ensino de Direito, Economia e Administração nas universidades privadas; e de Engenharia, Física, Química nas universidades públicas. A formação de engenheiros e técnicos é um “buraco”, no Brasil, que forma pessoas de alto nível voltadas para P&D em atividades de ponta. Empresas como a Petrobras fazem convênios com unversidades. O Brasil não tem uma grande empresa de ponta, nacional, no segmento da tecnologia da informação e comunicação.
Os empregos qualificados que geram remunerações mais elevadas estão ligados ao conteúdo tecnológico das empresas. Ocorre uma transformação na China, ao agregar mais valor e qualidade aos produtos que exportam, fruto de uma decisão de Estado.
Debates e idéias
O empresário Luiz Garcia, presidente da FEBRATEL, sob o impacto da palestra, fez uma analogia entre Brasil e China. Disse que a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária –, criada em 1973 e hoje com mais de 8 mil pesquisadores (72% com doutorado) e orçamento acima de R$ 1 bilhão, não fica devendo nada à China. Quanto ao CPqD – Centro de Pesquisa e Desenvolvimento –, que foi praticamente destruído com a privatização do sistema Telebrás, vai ficar revigorado com o aporte de recursos do Fust – Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações.
Comentou José Cassiolato sobre a falta de uma estratégia de país. Todo país precisa de uma estratégia, como aconteceu na Finlândia, com o advento do celular. A Nokia, empresa que desenvolveu e produziu produtos com sucesso para a indústria do celular, criou um cluster de empresas de alta tecnologia na Lacônia, tal como o CPqD fez em Campinas (SP). Cases de sucesso precisam ter estratégias bem definidas.
Respondendo a uma pergunta da platéia, observou o palestrante que a Espanha recebeu recursos da União Européia para P&D, bem como para viabilizar um cluster para a fabricação de equipamentos. O Estado precisa ter o papel de organizador de interesses. Tivemos, aqui, a empresa Trópico. A estratégia da Telefónica foi a de levar consigo seus fornecedores.
O debatedor Hélio Bampi, do SIITEP, perguntou o que poderia ser feito para dinamizar a atividade de P&D no Brasil. “Incentivos fiscais” foi a resposta. Para o palestrante Dagoberto Lima Godoy, do CNI, a Consolidação das Leis do Trabalho constitui um óbice à competitividade da economia brasileira. A luta da Confederação Nacional da Indústria tem sido no sentido de uma reformulação na legislação trabalhista, bandeira que ela também levanta na OIT– Organização Internacional do Trabalho.
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