Sociólogo fala dos desafios da mídia de massa, como televisão e Internet
19/11/2009 12:20 :: João Carlos Fonseca
O VII Encontro Internacional de Televisão trouxe ao Brasil o sociólogo francês Dominique Wolton, autor e reconhecido pensador sobre mídias. Proferiu palestra, em 13 de novembro último, no Sesc do Rio de Janeiro. Diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França, ele fundou, em 1988, a revista Hérmes, referência internacional na área de mídia. Veja, aqui, algumas de suas idéias. Surpreenda-se, também, com os pensamentos de Wagner Montes e Ratinho, os “sociólogos” do dia a dia de nossa televisão.
A Oi, citada nesta matéria, é uma Associada TELEBRASIL.
Números mundiais revelam a fantástica penetração alcançada pelos meios eletrônicos. Os 6,7 bilhões de pessoas de nosso planeta possuem, segundo dados de hoje, 4 bilhões de aparelhos de rádio, outro tanto de aparelhos celulares, 3,5 bilhões de televisores e 1,5 bilhão de computadores. É uma revolução que se acelera.
Celular: maior caso de sucesso
O maior caso de sucesso tem sido o crescimento do telefone celular. Dominique Wolton usa a expressão francesa “portable”. Vale dizer, o ser humano utiliza a própria voz para se comunicar, de qualquer lugar, por meio do celular. Historicamente, o rádio fez surgir o fenômeno da mídia de massa. Agora, é a vez da comunicação de massa, que existe graças ao “portable”.
Explicou o sociólogo que a ideologia técnica profetizou que a Internet seria o fim da televisão. A TV não seria politicamente legítima. Não só a Web acabaria com a televisão, como ainda o audiovisual e o computador seriam a pá de cal dessa morte anunciada. Tal profecia, porém, não aconteceu. A verdadeira concorrência da televisão – principalmente na Europa – ocorre entre os setores público e privado. No Brasil, a televisão privada é esmagadoramente dominante e boa, reconheceu o sociólogo. O mesmo acontece no México, sem atingir, porém, o nível de qualidade da nossa.
A mídia de massa – o rádio e a televisão – pode ser utilizada para educar, informar e entreter. Suas dimensões são de cunho político, cultural e social. Milhares de pessoas que não possuem o mesmo nome, passaram a criar, graças à mídia de massa, uma mesma identidade nacional.
Dominique Wolton cita exemplos. No Japão, após a II Guerra Mundial, houve um plano para que os japoneses perdessem sua identidade. Tal não aconteceu graças à mídia de massa, com a NHK (Japan Broadcasting, dos anos 40 a 70). Já na Alemanha, dividida pelos vencedores entre Oriental e Ocidental e depois reunida nos anos 90, a reunificação cultural passou a constituir um dos grandes problemas.
“A mídia televisiva”, ensinou o palestrante, “tem cinco categorias que fazem tanto o seu sucesso econômico quanto de audiência e que cimentam laços sociais e culturais. São elas: informação, esportes, séries e ficção, criança e jogos”. É só analisar a grade de programação de certas emissoras.
Pontos positivos da TV
A televisão se tornou a memória do País e do mundo e se constituiu em um laço entre a cidade e o campo. Muito dizem não gostar de televisão, mas ninguém deixa de assisti-la. Rádio e televisão acompanharam e participaram do fenômeno da globalização e da abertura mundial. Surgiu uma cultura midiática comum entre as classes sociais diferentes. Uma cultura midiática que alguns podem detestar, mas que é repartida entre todos e que fortalece a noção de democracia.
O intelectual Dominique Wolton gosta de soltar farpas contra seus pares. “Intelectual só gosta de televisão quando é entrevistado por ela”, dispara e acrescenta, irônico, “intelectual gosta de Internet, mas não gosta de produtos de massa. O intelectual pode ventilar as suas críticas, a massa não. A massa, no entanto, não é burra. O silêncio da massa perante uma idéia não significa a sua aceitação”.
“O público, mesmo o pobre, não é idiota. Se o público fosse idiota, por que os meios de divulgação gastariam tanta energia e dinheiro com ele? As elites acreditam que elas manipulam os outros e que elas próprias não podem ser manipuladas”.
Dominique Wolton também filosofa: “a democracia pressupõe que todos são iguais, para que haja o sufrágio universal. A origem da legitimidade da democracia ocorre, justamente, porque a massa é inteligente”. O palestrante aproveita para voltar ao assunto televisão. “Se o homem, ao votar, é considerado legítimo, por que ele deve ser considerado um idiota quando olha para a televisão?”.
Dominique Wolton é contra o conceito de que “a mídia de massa seria uma coisa idiota, ao passo que a informática e a Internet, coisas formidáveis”. Em 50 anos, o mundo mudou. Rádio e tevê são a inteligência do som e da visão. Eles podem não ser amados, ao refletirem o automatismo da violência que tomou conta do mundo.
Pontos negativos da TV
Desde dos anos 80, a telecomunicação de massa – ou seja, “n” pessoas falando com “n” pessoas – é vista como sendo superior à mídia de massa. Lembrou o palestrante que a televisão e o rádio sempre trabalharam do lado da oferta da informação, acrescentando quê: “talvez, com a televisão e a rádio comunitárias comecem a surgir o lado da demanda desses meios”.
Já a Internet, do lado da oferta, ela é passiva, mas, do lado da demanda, ela atua interativamente. Raciocina-se, então, que a Internet, centrada na demanda, seria mais inteligente e superior à televisão, centrada na oferta. Segundo Dominique Wolton, em “ambos os casos, oferta e demanda são inteligentes, dizem os psicólogos”. Diferentemente da imprensa, desde do tempo de Gutenberg, o eixo da tecnologia, na televisão, tem, todavia, se sobreposto ao projeto político de sua utilização.
Somos seres sociais que passamos da informação à comunicação. Faz mais de 60 anos que três setores industriais disputam o mundo da comunicação. Informática e telecomunicações se tornaram grandes sucessos econômicos. O audiovisual, porém, nem tanto. Com a ideologia da convergência técnica, a informática e as telecomunicações poderão literalmente “deglutir” o audiovisual.
A ideologia técnica diz que todos, em breve, estarão disputando a mesma tela. A televisão é, antes de tudo, a cultura da produção da imagem. Não é nem a cultura da informática e nem a das telecomunicações que irão retirá-la de cena.
Lógica da TV é a oferta e da Internet, a demanda
A televisão oferece seus produtos para serem consumidos. A Internet atende a uma demanda para ser utilizada.
Há mais de 120 anos que novas tecnologias para comunicação não conseguem acabar com a anterior. Assim aconteceu com a escrita, a imprensa, o rádio, o cinema e a televisão. Todavia, mesmo com a chegada de novas tecnologias, os homens não se compreendem melhor. No reino da tecnologia, o elemento mais complicado é como vai reagir o ser humano. A técnica não faz o homem melhor.
No mundo inteiro, as pessoas têm confiança na mídia de massa. A Internet, por sua vez, é um espaço de expressão que precisa de validação. É marcado pelo individualismo e pela lógica da demanda. A indústria cultural, a dança, a biblioteca, o riso e a indústria do conhecimento estão do lado da oferta.
O milagre da sociedade não é juntar comunidades que se entendem e sim o de aceitar também outros tantos milhões com seus desacordos. Em suma, “sociedade é o somatório dos que pensam igual e dos que pensam diferente”, resumiu Dominique Wolton.
O rádio e a televisão tocam todas as classes sociais e têm representações de todos os conflitos. A televisão não pode ficar muito próxima do poder público para não perder a sua independência. Não deve se temer fazer a programação para o povo voltada para o alto. O receptor, o ser humano, é sempre inteligente. O cenário mundial sabe conviver com o contraditório. De um lado, pessoas defendem a globalização da informação e de outro, organismos como a Unesco defendem a diversidade cultural.
A paz no mundo só será obtida com o respeito real para com a diversidade cultural. Países menores têm dificuldades em manter a sua identidade cultural. O Brasil é um dos líderes da lusofonia. O português é a sexta língua mais falada no mundo, depois do mandarim, híndi, espanhol, inglês e árabe. O mundo é uma aldeia global da tecnologia, mas não da tolerância entre as pessoas. A questão da comunicação não é da ordem da tecnologia e sim da política. Amar um outro que culturalmente não se parece conosco parece algo fácil, mas é bastante difícil.
A Europa, hoje, são 27 países, 26 línguas, 500 milhões de hectares e uma grande experiência democrática e pacífica. A América Latina, com três línguas – espanhol, português, ameríndio –, tem uma grande oportunidade na sua união.
O IETV e o VII Encontro Nacional de Televisão
O Instituto de Estudos de Televisão, criado em 2001, é uma organização sem fins lucrativos dedicada ao estudo e aprimoramento da produção e da cultura televisiva. O IETV vê na televisão um veículo autônomo e dos mais poderosos meios de informação, cultura e entretenimento de que dispõe a sociedade brasileira. O Instituto encoraja a pesquisa e a discussão da televisão através do permanente estudo de suas potencialidades criativas e de sua responsabilidade social.
O IETV realizou o VII Encontro Nacional de Televisão, em 13 de novembro último, no auditório do Sesc (Serviço Social do Comércio), no bairro do Flamengo, Rio de Janeiro. O evento, inserido no Festival Internacional de Televisão, foi patrocinado pela Oi e Petrobras, com o apoio institucional do Ministério da Cultura, da Fecomércio-RJ e do ano da França no Brasil.
Abriram o encontr Nelson Hoineff, presidente do IETV (dirigiu Alô, alô, Terezinha!); Tatyana Paiva, diretora cultural do SESC RJ; e Paulo Alcoforado, diretor da Ancine (Agência Nacional de Cinema). O Festival Internacional de Televisão, de 10 a 14 de novembro, teve 100 entradas de audiovisuais-pilotos, com 20 classificados. Paulo Alcoforado destacou que, além do dinheiro, a divulgação é um dos sérios problemas da produção audiovisual independente no Brasil.
Ratinho e Wagner Montes ao vivo no Oi Futuro
No espaço Oi Futuro – uma ex-estação telefônica da Telerj na praça General Osório –, em Ipanema, no Rio, o IETV efetuou, no dia em 14 (sábado), o seminário “Linguagem e Experimentação”. Presentes os apresentadores de TV Wagner Montes e Carlos Massa, este mais conhecido como Ratinho. O encontro, tipo talk-show, foi mediado por Nelson Hoineff, que confrontou o “Balanço Geral”, de Wagner Montes, na TV Record-Rio (Igreja Universal), com o “Programa do Ratinho”, de Carlos Massa, na SBT (Sílvio Santos).
Ambos demonstrando antiga e mútua amizade – apesar de há três anos não terem se visto ou conversado –, competem pelo interesse dos espectadores à tarde, antes considerado uma horário morto e, agora, renascendo das cinzas.
Sucessivamente sérios e histriônicos, Wagner Montes – “não sou candidato ao Governo do Rio de Janeiro, mas se for indicado vou ganhar” – e Carlos Massa –“moro em Curitiba ou na minha fazenda” – revelaram coisas da televisão e do pensar de cada um. A seguir, algumas amostras do que eles disseram em mais de duas horas de talk-show e que podem surpreender pela atualidade das observações:
"Programa de televisão veio substituir o circo; o brasileiro adora chanchada. O circo retrata a vida. Ao superar a audiência "dela", a gente comemora na hora e faz uma farra. Crítica boa a gente aceita, ruim é de quem tem inveja do quanto ganho. Em televisão, quem aparece na tela ganha bem, os demais nem tanto. A baixaria faz perder patrocinadores e não a audiência. Um programa meu, que dizem não ter anunciantes, tem embutidos "apenas" sete merchandising. Meu contrato foi renovado até 2014".
"Eu mostro o Brasil e é meu programa que vende. Eu falo todo embolado e meio caipira e o povo entende tudo que eu falo. Sou 100% a favor da instrução. É ela que vai permitir sairmos da violência. Prefiro ser rei na Tanzânia do que príncipe na Inglaterra. Com 16 anos de idade eu já fazia no rádio o que hoje faço em meu programa. Estamos numa guerra civil metropolitana. Na guerra, pessoas inocentes são feridas e mortas. Estamos num conflito diret o lado do bem contra o do mal. Quem dá dinheiro para drogas tem que se convencer que está dando dinheiro para as armas. Há um excesso de desgraça mostrada na televisão".
"Nem a Internet, nem o celular vão substituir a televisão. A televisão vai ter que produzir para esses meios. Programas religiosos podem ser muito sensacionalistas. Nada como fazer o programa ao vivo, com erro e tudo. O povo brasileiro é todo atrapalhado e se identifica. É algo cultural. Tem modos de fazer programas que estão desatualizados. Novos programas de televisão podem, ou não, dar certo. Há toda uma química. Criança não quer mais ver programas com urso de pelúcia. A criança mudou. Lula e Obama são dois pontos fora da curva".
Saiba mais sobre "Comunicação", acessando o glossário de Dominique Wolton (em inglês).