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Convergência: prestadoras de telecomunicações pressionadas para novas estruturas de redes e novos serviços
19/10/2009 14:00 :: João Carlos Fonseca

Redes sempre evoluíram. O crescimento do tráfego de dados e da Internet e o fenômeno da convergência fazem com que prestadoras revejam suas redes e – juntamente com parceiros – desenvolvam a oferta de novos serviços. A tendência da mudança é de âmbito mundial e não apenas de ordem técnica. Representa novos investimentos para as prestadoras e novos modelos de negócios que integram prestadoras, desenvolvedores de conteúdos e usuários. Aqui, um olhar sobre mudanças nas redes.

CTBC, Nokia Siemens Networks, Oi, Oracle, Telefônica, TIM e Vivo citadas nesta matéria são Associadas TELEBRASIL.

Palavras como informática (cloud computing), Internet (uma benção, mas um desafio), digitalização (realidade inevitável), competição (intra e extra setorial) e vulgarização (comunicação virou commodity) representam agentes de mudança no negócio das prestadoras.

A convergência opera em várias frentes. Na infra-estrutura, ocorre a integração, fixa, móvel e TI (tecnologias da telecomunicação e informação). Nos serviços oferecidos, é o double, triple e n-play. Nos dispositivos dos usuários ocorre a diversidade crescente de aplicações.

Os usuários da informação também estão mudando, principalmente os mais jovens. Querem um serviço individual e personalizado. Querem conviver com o mundo virtual que a Internet propicia e, sobretudo, querem estar sempre conectados. O uso dos produtos que lhes são oferecidos deve ser simples e estar disponível, com privacidade, segurança e comodidade. A lista de seus desejos é, por assim dizer, infinita.

Segundo a literatura especializada, com a chegada da Internet com suas múltiplas aplicações, as prestadoras de serviços de telecomunicações perceberam aos poucos ser irreversível a perda de sua hegemonia no mundo da comunicação. Seria melhor colaborar e não competir com os novos entrantes da Internet. Estes usam a web como base para seus negócios; as prestadoras deveriam facilitar o acesso dos desenvolvedores aos recursos de suas redes para criação de suas aplicações.

Mudanças evolutivas

Mudanças de rede precisam ser evolutivas. Não é jogar tudo que existe fora e recomeçar do zero. Os elementos "legados" precisam conviver com os novos elementos. Um conceito das novas redes é ter um portal onde estarão expostas facilidades das redes de telecomunicações, para que parceiros e clientes possam desenvolver e configurar, vai Internet, suas próprias aplicações. É um ciclo virtuoso. O aumento do número de desenvolvedores faz crescer a colaboração, as aplicações e as oportunidades. Quanto mais acessível for o uso do portal, mais pessoas irão colaborar.

Nessa nova concepção, por exemplo, se o usuário "A" quiser enviar uma mensagem multimídia (MMS) para o usuário "B", que não possui recursos para receber multimídia, ele acessará o elemento de rede (NE) correspondente. Através de uma plataforma de entrega de serviços (SDP), a mensagem irá para o domínio externo do provedor de conteúdo e/ou desenvolvedor de aplicações para ser adequada às características de recebimento do usuário “B”.

Haverá interações entre esse domínio do "parceiro" externo com os elementos de rede da prestadora, sempre intermediadas pela plataforma (SDP), até que a mensagem (MMS) seja entregue ao usuário "B" no formato mais adequado à sua realidade através de SMS ou e-mail, por exemplo.

Mudança na rede

Se o usuário quiser um serviço diferenciado e personalizado, isto representa novas regras e novos modelos de negócios. Nas prestadoras, a estrutura tradicional é vertical. Redes fixa, móvel, dados e Internet, TV e vídeo estão separados. Cada aplicação recorre separadamente a funções como CRM (costumer relationship management), billing (faturamento), OSS (operational support system) e security (segurança). A ideia, numa rede moderna, é integrar (convergir) todos esses elementos.

Uma rede nada mais é do que elementos interligados. Sua estrutura ou "arquitetura" pode ser visualizada em camadas. Uma arquitetura de três camadas – um modelo muito utilizado – distingue as camadas de rede, de controle e de aplicações que compõem a infraestrutura das prestadoras.

Elementos de integração atuam para interligar essa infraestrutura com as plataformas de OSS (operations support system) e BSS (business support system). A plataforma OSS faz o gerenciamento técnico da rede, enquanto a plataforma BSS focaliza o relacionamento com usuários e parceiros.

Toda rede tem uma lógica de funcionamento. Seus elementos precisam "falar" entre si, através de protocolos estabelecidos. Numa visão geral, a rede possui elementos de software que comandam sua eletrônica (hardware). A organização das redes é um assunto complexo – cheio de siglas – e em constante evolução. Essa organização constitui o cerne do instrumental utilizado para o negócio das telecomunicações.

Arquitetura orientada a serviço

O acrônimo SOA (service oriented architecture) significa arquitetura orientada a serviço. Nessa arquitetura, elementos de software – códigos de programação – são feitos para poderem facilmente se vincular a outros elementos de software.

O termo serviço, aqui, traduz códigos de software que podem ser facilmente compartilhados e reutilizados em diversas áreas da rede. Isso permite que certas tarefas da rede possam suceder de maneira automática. Uma camada presta "serviço" a outra e assim o conjunto funciona como se fosse um grande processador de informações.

Desenvolver novos produtos para servir ao usuário pode levar tempo. Se esse tempo puder ser reduzido é uma vantagem para todos. Explicou um desenvolvedor que SOA não é um produto ou uma receita pronta e sim um direcionamento. É uma arquitetura que possibilita o reuso de componentes e acelera o andamento de processos na rede.

Outra linha arquitetural que ajuda bastante é o SDP (service delivery platform) ou plataforma de entrega de serviços. Aqui, a ideia é fazer a abstração dos elementos de rede e efetuar a intermediação entre os aplicativos do usuário e os "serviços" da rede.

Os dois eventos

O Informa Group, sediado em Londres, organizou no Windsor Barra Hotel, Rio de Janeiro, nos dias 29 e 30 de setembro, os eventos MDM (Mobile Device Management Latin America) e SDP (Service Delivery Platform) para especialistas e para troca de informações entre fornecedores e prestadoras entre si.

Patrocinaram o MDM: Interop Technologies (SMS, MMS, gerenciamento de dispositivos móveis), baseada na Flórida (EUA); e Gemalto (segurança digital, cartões inteligentes), com "headquaters" em Amsterdam (Países Baixos). Patrocinaram o SDP: as norte-americanas Oracle (base de dados, software empresarial) e Amdocs (OSS, BBS), a indiana IMIMobile (service delivery platforms) e a europeia Nokia Siemens Networks (conectividade).

O evento MDM contou com palestras da Motorola, Smarttrust, Gemalto, Interop e Oi, TIM Brasil e Vivo. Segundo a programação, do lado dos provedores, José Bueno de Marco (Motorola) tratou da oferta de handsets, do papel dos fabricantes e da necessidade de maior padronização de terminais e aplicativos.

Magnus Lenrdell (Smarttrust), John Ainsworth (Gemalto) e Tom Hourian (Interop) discorreram sobre o tema do OMA DM (open mobile alliance device management) e seus impactos. A OMA, criada em 2002, reúne tradicionais fornecedores de hardware e software, bem como prestadoras de serviços de telecomunicações.

Do lado das prestadoras, Sebastião Boanerges (Oi) falou das configurações remotas e do tipo de demanda gerada pela portabilidade numérica e pelo desbloqueio de aparelhos; Horst Kuchelmeister (TIM Brasil) tratou do impacto do smart phone (telefone inteligente) e do MDM (master data management); e Paulo Vicente Valente (Vivo) discorreu sobre "a importância e as dificuldades das operadoras para manterem a base de terminais completa e atualizada".

No evento SDP, Gladson Russo, da Nokia Siemens Networks, mostrou como a plataforma SDP acelera e propicia a criação de aplicação de serviços de valor adicionado (VAS); e Célio Rosa, da Oracle, tratou de serviços que inovam e como uma arquitetura SDP pode ajudar.

Por sua vez, Gustavo Taveira, que representou Sylvia de Oliveira e Cruz, ambos da Vivo, trouxe um depoimento do "case" multinacional da sua prestadora que implementou uma plataforma SDP completa, em conjunto com a Telefônica, no mundo todo; e Marconi Magalhães Mendes, da CTBC Telecom, relatou os desenvolvimentos da prestadora na oferta de serviços e aplicações convergentes.

Serviços convergentes da CTBC

Marconi Magalhães Mendes trabalha na Coordenação de Desenvolvimento de Serviços da CTBC Telecom e proferiu a palestra "SDP como facilitador no oferecimento de serviços e aplicações convergentes".

A CBTC – Companhia de Telecomunicações do Brasil Central –, do grupo Algar, com sede em Uberlânda (MG), já oferece serviços convergentes, como o "CelFix", em que uma ligação de um telefone fixo para o celular é feita com a tarifa de celular e do celular para o fixo é feita com tarifa do telefone fixo. Outro serviço oferecido é o "Clipe CBTC", que agrega telefone fixo, celular e Internet.

Em 2007, a prestadora criou um grupo multidisciplinar, com uma dezena de pessoas, incluindo parceiros externos. É uma área isolada da operação do dia a dia e tem foco no desenvolvimento de serviços de valor adicionado, algo que envolve engenharia e TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação).

Há cerca de um ano, esse grupo desenvolve o Projeto Coreo (de coreografia), que ainda não está disponível para o grande público. Trata-se de um portal em que um desenvolvedor externo, ou mesmo o usuário final, pode construir seus aplicativos.

Uma aplicação de TTS (text to speech) está sendo experimentada no Projeto Coreo. Trata-se do envio de um texto obtido na Internet ou mesmo de um SMS (Short Message Service), que será entregue em formato de áudio para o telefone do usuário. Qualquer cliente poderá compor um texto que chegará a seu destinatário sob forma de voz.

Aplicação de auxílio a lista

Uma iniciativa interessante do projeto é o aplicativo de auxílio a lista, que, além do número solicitado, disponibiliza, por MMS (multimidia messaging service) ou e-mail, um mapa – obtido de um parceiro – com a localização do endereço desse número.

Uma outra aplicação é o atendimento SMS (short message service) em call centers. Por meio dessa ferramenta, os usuários da prestadora podem enviar mensagens com solicitações que serão tratadas e respondidas pelos atendentes. Em uma experiência, foram enviados SMS com informações sobre essa nova modalidade de atendimento para duas mil pessoas e verificou-se que o usuário está disposto a utilizar esse canal de relacionamento.

Por utilizar ferramentas open source, a equipe do projeto participa de fóruns de discussão via web. Um desenvolvedor na Irlanda do Norte se interessou por uma das ferramentas utilizadas no projeto da CTBC e, há algum tempo, membros da equipe auxiliam no desenvolvimento de uma aplicação para outra prestadora. Essa experiência comprova que o desenvolvimento de aplicações para as prestadoras de serviços de telecomunicações não está mais restrito ao seu ambiente; qualquer pessoa com acesso à Internet pode dele participar.

O sonho de toda prestadora é encontrar a "killer application", aquela que irá gerar alto volume de negócios e justificar o investimento correspondente. Segundo Marconi Mendes, "o mercado pode não saber qual novo serviço ou modelo de negócios irá prevalecer, mas a empresa com o melhor ambiente de negócios sairá na frente".

O melhor ambiente de negócios será aquele sem restrições à inovação e com flexiblidade para desenvolver novos serviços. Além disso, facilitar a conexão de novos provedores de conteúdo e serviços é fundamental.

A inovação, no caso, passa por conceitos como SOA (service oriented architecture), que permite o reuso de serviços da infraestrutura de TI; e SDP (service delivery platform), que possibilita, por meio da abstração da rede da operadora, expor facilidades que viabilizam o desenvolvimento de novos produtos.

A ideia é o usuário ter liberdade de configurar os seus próprios serviços e que se beneficie da mobilidade que a Internet propicia. A integração prévia dos sistemas OSS (operation support system) e BSS (business support system) também é essencial a esse ambiente de negócios.

"Não basta, porém, mudar a rede. É preciso mudar também a maneira como as aplicações são tratadas", disse o palestrante. As prestadoras gastam entre 40% e 70% da verba de TI para efetuarem a integração das aplicações que transitam pela rede. Por isso, a aplicação de conceitos, como SOA e SDP, é vital para se reduzir os impactos dessas integrações.

Nota 1: o autor desta matéria agradece a revisão técnica efetuada graciosamente pelo engenheiro Marconi Magalhães Mendes;

Nota 2: o autor credita à palestra "A evolução e motivação para o SDP- Service Delivery Platform", de Marconi Magalhães Mendes, conceitos utilizados na primeira parte desta matéria.


 

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