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Satélites geoestacionários: Brasil quer produzir e ingressar no clube de um mercado multibilionário e estratégico – II
16/10/2009 11:13 :: João Carlos Fonseca

A indústria satelital é de alta tecnologia que governos do Cone Sul querem dominar, ao menos em parte. Brasil tem a base de Alcântara (MA) em localização geodésica excepcional. Vertentes estratégicas e comerciais tornam a discussão, entre Governo e iniciativa privada (nacional e internacional) das mais interessantes. Tudo isso e muito mais foi abordado durante o 9º Congresso Latino-Americano de Satélites, que aconteceu nos dias primeiro e 2 de outubro, no Sheraton Hotel, Rio de Janeiro (RJ), numa iniciativa da Converge Telecomunicações.

Embratel, Febratel, Hispamar, Oi e Sindisat citadas nesta matéria são Associadas TELEBRASIL.

Uma indústria multibilionária

Segundo dados da Space Foundation (de 2008), a atividade espacial mundial, incluindo bens e serviços, indivíduos, corporações e governos, movimentou US$ 257 bilhões, dos quais 35% em serviços satelitais comerciais; 32% em infraestrutura comercial; 26% só do orçamento espacial do Governo dos EUA; 6% dos outros governos; e somente 1% com lançadores e indústria de suporte. No todo, trata-se de uma atividade multibilionária.

De acordo com relatório da Satellite Industry Association (SIA), preparado pela empresa Futron Corp., do ponto de vista da receita, a indústria satelital faturou US$ 144 bilhões em 2008, repartidos entre serviços satelitais (US$ 84 bilhões), equipamentos em terra (US$ 46 bilhões), fabricação dos artefatos (US$ 10,5 bilhões) e lançamentos (US$ 3,9 bilhões).

Os EUA abocanham 41% do mercado global de satélites, deixando 59% para o restante do mundo. Estão na faixa de 5 a 6% desse mercad França, China, Japão e Rússia. O mercado brasileiro, com 1,9%, está à frente de muitos países como Austrália, Países-Baixos, Indonésia e Espanha, mas perde para o Reino Unido, Índia, Canadá e Luxemburgo.

Do ponto de vista orbital, 49% dos artefatos que estão no ar são GEOs (geoestacionários); 41%, LEOs (low earth orbiting satellites); 6%, MEOs (órbita média); e 4%, em órbitas elípticas. Satélites no mundo estão sendo utilizados: 62% em telecomunicações, 25% em uso científico, 7% em navegação, 4% para reconhecimento e vigilância e 2% em outras aplicações.

América Latina

Segundo a Convergência Latina, a demanda por satélite na América Latina está assim distribuída: 47% para dados, 35% para televisão e 18% para voz. A Banda C é dominante, com 1.540 transponders, seguida da Banda Ku com 914 transponders.

A eventual escassez de capacidade – nem todos os participantes do evento da Converge concordaram que venha a acontecer – e o aumento da HDTV (high definition tv), mesmo com técnicas de compressão, podem pressionar para que varie para cima o preço do MHz.

Para o futuro próximo, dentre os satélites previstos para a América Latina, cuja demanda anual cresce 7% a 8%, citam-se: o SatCol colombiano, em Bandas Ku e Ka; o boliviano Tupac Katari; os C3 e C4 da Star One; o Intelsat, com três satélites até 2012; o SES, com um lançamento e uma realocação previstos; o mexicano Satmex 7; o Hispasat, com o 1E em 2010; o Arsat, com três satélites até 2014; a Comunidade Andina; e a Telesat, com um lançamento previsto.

A América Latina (excluída a Direct TV) possui 36 operadores de TV digital (23 têm alta definição). Em termos de padrão de TV digital, Colômbia, Uruguai e Panamá optaram pelo padrão europeu DVB-T (digital video broadcasting – terrestrial); Argentina, Brasil, Chile e Peru, pelo nipônico ISD-T (digital video broadcasting- terrestrial); e El Salvador, Honduras e México, pelo norte-americano ATSC (Advanced Television Systems Committee).

Satélites e o Brasil

O Brasil, um grande utilizador de satélites de telecomunicações, está com 720 transponders ou repetidores no espaço, basicamente de 36 MHz cada, autorizados pela Anatel, nas Bandas Ku e C, representando 54%. Em terra, são 136 mil estações móveis licenciadas e 56 mil fixas. Desde 1995, nove satélites brasileiros já foram lançados ao espaço.

Até primeiro de outubro último, o Brasil tinha 12 satélites GEOs em operação. Isto é, 15% dos artefatos que cobrem a América Latina. Além de seis artefatos da Star One – Brasilsat B1 (68ºW), B2 (92ºW), B3 (75ºW), B4 (84ºW) e Star One C1 (65ºW) e C2 (70ºW) –, um é da Loral Skynet, Estrela do Sul (63º W); e outro, da Hispamar, o Amazonas (61° W). Todos os satélites operam na Banda C, à exceção do Estrela do Sul, que só tem Banda Ku. Já os Brasilsat só têm Banda C. Os Star One têm Bandas C, Ku e X, de uso militar. O Amazonas opera nas Bandas C e Ku. Além de quatro da PanAmSat do Brasil.

Do ponto de vista técnico, a Banda C gera antenas maiores, mas resiste melhor à meteorologia equatorial. A Banda Ku tem maior capacidade intrínseca. As empresas que aqui operam satélites têm capital de controle estrangeiro. A Star One, "uma empresa Embratel", é de controle mexicano; a Loral Sky Net, norte-americano e canadense; e a Hispamar, espanhol.

Trinta e um satélites estrangeiros estão autorizados pela Anatel a operar no Brasil. São eles: Columbia (um artefato), Eutelsat (quatro), Hispasat (dois), Inmarsat (três), Intelsat (oito) – o Brasil representa 40% do faturamento da Intelsat na amaérica Latina –, Loral (um), New Skies (dois), Panamsat (seis), Satmex (dois), SES (um) e Telesat (um). Operam na Banda C 20 artefatos; só na Ku, dez; na C e Ku, oito; e na L, um artefato para uso marítimo (Inmarsat).

As posições orbitais desses satélites estrangeiros se estendem de 116º W a 10º E, e eles representam 65% de satélites autorizados pela Anatel, em relação ao total de satélites com cobertura na América Latina.

Programa Espacial Brasileiro

O Programa Espacial Brasileiro (PEB) – "para um país grande, que tem vocação espacial" – abrange satélites, veículos lançadores, centros de lançamento e até a formação de astronautas. O Brasil quer entrar no campo dos satélites e dos lançadores.

Em 1979, nasceu a Missão Espacial Completa Brasileira (MECB). Foram desenvolvidos dentro desse programa os SCD-1 e 2 (Satélite de Coleta da Dados), lançados, respectivamente, em 1993 e 1998. Completam o sistema 600 plataformas de coleta de dados e antenas de recepção em Cuiabá (MT) e em Alcântara (MA), com processamento em Cachoeira Paulista (SP).

Desde de 1998, em parceria com a China, o Brasil tem os CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite) 1 e 2 e 2B (2007). Estão previstos os CBERs 3 para 2011 e 4 para 2013. A cooperação para os CBERs, sem transferência de tecnologia, envolve o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a Cast (Academia Chinesa de Tecnologia Espacial). O lançamento e os artefatos são chineses. Montagem, teste e processamento de imagem são efetuados no Brasil.

Desde 2008, o Inpe tem acordo com o Centro Espacial Alemão (DLR) para o Mapsa, que é o mapeamento por satélite utilizando radar.

O Brasil ainda desenvolve no Inpe o Amazônia-1, para “imageamento” da Região Amazônica; a Sabiamar, em cooperação com a Argentina, para investigação de águas marítimas; o GPM-Brasil, para estudos meteorológicos; e o Lattes, para uso científico em Astrofísica.

O portfólio do Inpe ainda inclui o desenvolvimento do projeto SGB-Satélite, um satélite geoestacionário brasileiro para “serviços estratégicos como comunicações militares, tráfego aéreo e meteorologia”, como visto na primeira parte desta matéria.

No segmento de lançadores, a tecnologia dos foguetes de sondagem – Sonda I (1965), II (1969), III (1976), IV (1984) e VS-30 – serviu de base para um veículo lançador de satélites (VLS). Considerado na classe dos pequenos lançadores, o VLS-1 tem quatro estágios a combustível sólido, com cerca de 50 toneladas na decolagem. É capaz de lançar satélites de 100 Kg a 350 Kg, em altitudes de 200 km a 1000 km. O VLS-1 teve protótipos em 1997 e 1999 e um trágico acidente no lançamento em 2003.

O Brasil possui dois centros de lançamento CLBI e CLA, um diferencial no xadrez estratégico da geopolítica.

O Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), nascido em 12 de outubro de 1965, está ao sul de Natal (RN). Lançou pela primeira vez em território nacional um foguete “não junino”. Foi o norte-americano Nike Apache. A Barreira do Inferno já efetuou quase três mil operações de lançamentos, com os respectivos rastreamentos. O crescimento urbano de Natal faz do CLBI um centro de rastreamento, apoio ao CLA de Alcântara e para treinamento de pessoal.

O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), ao norte de São Luís (MA), está a 2º 18” S do equador. Aproveita bem a rotação da Terra no lançamento, que é voltado para o mar, que fica à leste. Um lançamento de Alcântara requer até 30% menos de combustível se comparado com outros sítios. A baixa densidade demográfica e a meteorologia favorável acrescem “às vantagens de Alcântara”.

Quanto ao programa de astronautas, em 29 de março de 2006, num veículo Soyuz TMA-8, lançado de Baikonur (Cazaquistão), o tenente-coronel Marcos Ponte (AEB), natural de Bauru (SP), com Pavel Vinogradov (RKK Energia) e Jeffrey Williams (NASA), aportou na estação espacial internacional (ISS). Marcos Pontes, dez dias depois, pousou de volta são e salvo no deserto do Cazaquistão. Hoje, ele reside em Houston (Texas),

Acordos do Brasil: do científico para a prática

O Brasil assinou protocolos para uso pacífico do espaço e de energia atômica e acordos de salvaguardas tecnológicas. Salvaguardas, no caso, é não disseminar, sem autorização, tecnologias sensíveis dos que utilizam as plataformas de lançamentos do País. O Brasil mantém acordos de cooperação com diversos países, em sua maioria para aplicações de caráter científico.

O acordo com a Ucrânia, todavia, foi um encontro de mútuo interesse. A Ucrânia (latitude 49º N) sabe desenvolver lançadores. O Brasil, com Alcântara (latitude 2º, 18” S), tem o local de lançamento ideal.

Em 1992, a Ucrânia passou a ser uma das 15 repúblicas desmembradas da União Soviética e possui a tecnologia de lançamento satelital. Em 1995, surge a idéia do lançamento de cargas úteis brasileiras, ucranianas e de outros países do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). Nesse acordo, o Brasil entra com o local e a infra-estrutura e os ucranianos, com o desenvolvimento do veículo lançador Cyclone-4.

Em 1999, um acordo-quadro entre Brasil e Ucrânia é assinado. O ministro da C&T do Brasil era, então, Ronaldo Sardenberg, atual presidente da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).

O ano de 2003 viu nascer a binacional "Alcântara-Cyclone Space", para lançamentos comerciais. O voo de qualificação do Cyclone-4 está previsto para 2010. O objetivo é ter capacidade para colocar em órbitas baixas (500 km) equipamentos até 5.300 kg, ou em órbita intermediária geoestacionária massa de até 1.600 kg. A título comparativo, o artefato C1 da Star One possui uma massa de 4.100 kg.

O Brasil mantém acordos com: Alemanha, para microgravidade e radar orbital; Argentina, o primeiro acordo de cooperação é de 1989, lançamentos suborbitais e plataformas; China, desde 1988, sensoriamento remoto; Chile, acordos de cooperação desde 1990; França desde os anos 60, pesquisa científica, microssatélites/propulsão e balões estratosféricos (em 2005); Índia, em 2000, início de cooperação, para rastreamento de satélites de rastreamentos indianos e possível monitoramento da missão lunar Chandrayaan-1.

Ainda há acordos do Brasil com EUA, com a Nasa (National Aeronautical and Space Administration), para diversos programas de cunho científico, incluindo observação da Terra, “imageador”, estação espacial internacional (1997), Astrofísica, GPS (global positioning system) e interferometria. Os EUA, bem como outros países, pediram salvaguardas tecnológicas nos lançamentos norte-americanos da base de Alcântara. Tecnologia de ponta ninguém fornece de graça.

Com a Rússia, desde 1996, a cooperação com o Brasil incluiu curso em propulsão líquida, revisão do VLS-1 (em 2004), estudo conjunto para VLS-1B e o sistema de geoposicionamento Glonass; e com a Agência Espacial Europeia, desde 1994, acordo para rastreamento e telemedição.

Nota: Na matéria "Satélite Geoestacionário", o correto é: Brasil representa 40% do faturamento da Intelsat na América Latina; e Intelsat (incluindo PnAmSat do Brasil) totaliza 12 satélites autorizados no Brasil. Agradecemos correção de Estevão Ghizoni, Intelsat, enviada de Coral Gables, na Flórida (USA).


 

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