Satélites geoestacionários: Brasil quer produzir e ingressar no clube de um mercado multibilionário e estratégico – I
14/10/2009 10:33 :: João Carlos Fonseca
A indústria satelital é de alta tecnologia que governos do Cone Sul querem dominar, ao menos em parte. Brasil tem a base de Alcântara (MA) em localização geodésica excepcional. Vertentes estratégicas e comerciais tornam a discussão, entre Governo e iniciativa privada (nacional e internacional) das mais interessantes. Tudo isso e muito mais foi abordado no 9º Congresso Latino-Americano de Satélites, que aconteceu nos dias primeiro e 2 de outubro, no Sheraton Hotel, Rio de Janeiro (RJ), numa iniciativa da Converge Telecomunicações. Aqui, um retrato do otimismo e também da dialética que permearam o evento.
Embratel, Febratel, Hispamar, Oi e Sindisat citadas nesta matéria são Associadas TELEBRASIL.
O 9º Congresso contou com patrocínio da Hispamar, Intelsat, SES World Skies; apoio da Abrasat, Sindisat e SSPI; parceria de mídia da Convergência Latina; e promoção das publicações Tela Viva, Ti Inside, Teletime.
Durante o evento, ocorreram as notícias (02/10/2009) que o Rio de Janeiro fora a cidade escolhida para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, e que o artefato Amazonas 2 (Bandas C e Ku) da Hispamar, com 40% de sua capacidade vendida, fora lançado (18:59 de 01/10/2009) com sucesso e rumava esperançoso para sua posição orbital síncrona permanente, em 61° W.
O Congresso da Converge reuniu cerca de 200 pessoas da comunidade satelital e foi marcado por otimismo. "A indústria satelital está bombando no Brasil e as perspectivas cinzas do passado não aconteceram", resumiu com verve o publisher Rubens Glasberg, organizador do encontro, referindo-se aos anos 2000, em que houve excesso de capacidade satelital no País.
A demanda por satélite continua aquecida e as perspectivas são boas – graças à televisão digital de alta definição, à TV por assinatura, ao triple play e à banda larga –, ao contrário do que sucedeu no passado, após o rompimento da bolha da Internet. Questões clássicas sobre interferências, novas posições orbitais necessárias, uso das Bandas C, Ku, Ka – sobre a qual permanecem dúvidas quanto ao seu desempenho nos trópicos –, L (para uso marítimo) e X (para utilização militar) formaram o pano de fundo técnico do evento.
Apresentações de impacto
Duas apresentações, repletas de perspectivas, causaram impacto A Agência Espacial Brasileira (AEB) divulgou os planos para o lançamento no País de um satélite geoestacionário (GEO) feito aqui. A empresa O3B anunciou, para 2011, seu sistema mundial de artefatos orbitando em média altitude (MEO), na Banda Ka e com promessas de “preços imbatíveis”.
A AEB, surpreendentemente, se vê na obrigação de convencer a sociedade que o Brasil merece ter sua indústria espacial. Países "baleias" são apenas três: China, Brasil e EUA. Tais países têm PIB acima de US$ 600 bilhões, área em excesso de cinco milhões de km2 e população acima de 150 milhões. China e EUA já possuem sua indústria espacial completa e o Brasil – que a ainda não a tem – sente essa incontida vocação.
O diretor Himilcon Carvalho, da Agência Espacial Brasileira, criada em 1994, explicou a política espacial brasileira. “Uma linha de atividades inclui a construção no País de um satélite geoestacionário brasileiro (SGB), em regime de parceria público-privada (PPP) e a ser lançado da base de Alcântara (MA), em conjunto com a Ucrânia, pela binacional “Alcântara Cyclone Space”.
O Brasil vai continuar evoluindo nos sistemas de coleta de dados e de observação da Terra que “vão muito bem, obrigado”. O País desenvolve uma plataforma satelital multimissão (PMM) e tem um programa de veículos lançadores de satélites (VLS) com combustível sólido. A política espacial brasileira ainda cobre outros tópicos, inclusive a preparação de astronautas brasileiros.
A palavra mágica da atividade espacial é hightech. Ela só perde o cetro, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), para a indústria farmacêutica. A atividade espacial agrega alto valor a seus produtos, ordens de grandeza mais do que as decantadas commodities, que nosso país exporta, ressalta a AEB. Satélites são usados para a observação do planeta (recursos do território), comunicações (universalizar o conhecimento), geoposicionamento (navegação) e meteorologia (clima para agricultura).
Historicamente, como no caso dos EUA, o ciclo do setor espacial segue o modelo PPP: público, para atividades de desbravamento inicial, com financiamento público; e privado, com contratos com a indústria. À medida que progride a atividade, a empresa privada atua mais. A cadeia da atividade espacial compreende: serviços, segmento de solo, venda de capacidade, lançadores e satélites que geram economias sustentáveis em comunicações, navegação e observação da Terra. Com o sucesso da PPP, a AEB implementadora passaria a AEB reguladora.
Brasil espacial
O decreto nº 1.322, de 08/12/1994, atualizou a política nacional de desenvolvimento das atividades espaciais. Dela decorre "criar autonomia no País em satélites, lançadores e infraestrutura, qualificando o setor produtivo brasileiro a participar com competitividade no mercado de bens e serviços espaciais".
A AEB administra o “Programa Espacial Brasileiro”, com a participação do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais MC&T) e do CTA (Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial). Respondem ao CTA: o IAE (Instituto de Aeronáutica e Espaço), o CLA (Centro de Lançamento de Alcântara) e o CLBI (Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte, de 1965).
O desejo de dominar a atividade espacial é antigo no Brasil, mas nunca chegou a constituir prioridade nacional. O País tem experiência em artefatos de baixa altitude (LEOs), desde os anos 90, em cooperação com a China. Hoje, desenvolvemos no Inpe, dentre outros projetos, uma plataforma multimissão (PMM) de tamanho médio, para carga útil de 250 a 280 kg que encontrará aplicação no Amazônia-1 (2011), para observação terrestre. Uma das duas câmeras desse artefato será de desenvolvimento nacional.
A apresentação da AEB, uma autarquia ligada ao Ministério da C&T, gerou no 9º Congresso, um urbano debate programado entre representantes do Governo (Minicom, Ministério da Defesa, AEB) e da iniciativa privada (Oi). O posicionamento geral foi que, do ponto de vista estratégico de Estado, um SGB – satélite geoestacionário brasileiro – é muito bem-vindo, desde que supra, de fato e a tempo e hora, as necessidades do próprio Governo e não impacte os aspectos comerciais de mercado.
"Um SGB, que utilizará as Bandas Ka e X, não vai competir com as operadoras convencionais, mas a preocupação permanece", foi comentado ao longo do evento. Sobre a Banda X, de uso militar, ela tem sua importância renovada e foi utilizada no Haiti. "O Brasil será chamado a participar, cada vez mais, para pacificar conflitos no mundo".
Fórum de debates
Participaram da sessão de debates sobre o satélite geoestacionário brasileiro (SGB), pelo Governo, Jovino Francisco Fº, do Ministério das Comunicações; Paulo Mourão, do Ministério da Defesa; Himilcon Carvalho e Thyrso Vilella, da AEB; e pelo setor privado, Luiz Francisco Perrone, da Oi. A seguir, alguns highlights.
O Sistema de Comunicações Militares por Satélite (Siscomis), hoje, tem mais de 40 terminais terrestres (fixos e móveis). Utiliza transponders especiais na Banda X, portados por artefatos comerciais C1 e C2, da Star One, empresa com controle de capital mexicano. O Siscomis deve ser expandido para 100 terminais e oito transponders na Banda X.
Syracuse, da França; Spainsat (13 transponders X e 1 Ka), da Espanha; SkyNet, do Reino Unido; e Sicral, da Itália são de uso exclusivo militar. A posição orbital 48º W é a preferida do Estado Maior das Forças Armadas (Emfa).
O Brasil poderá vir a ter, num modelo de parceria público privada, um sistema geoestacionário brasileiro nas Bandas Ka e X, para uso militar e para meteorologia – a observação da Terra é importante para a produção agrícola de commodities. O projeto é complexo. O Ministério da Ciência e Tecnologia está avaliando qual consórcio, dentre três, será vencedor para um estudo de viabilidade técnica, jurídica e econômica do projeto. O resultado será anunciado ainda este ano.
A AEB quer a participação da indústria brasileira no projeto SGB, inclusive para a exportação de produtos de alta tecnologia. A gestação de um satélite leva no mínimo dois anos, e os custos podem alcançar a cifra de US$ 600 milhões. O Brasil quer evoluir da fase de P&D para satélites de cunho científico para o da engenharia satelital de mercado. Em estudo, o modelo de uma grande empresa integradora para essa atividade.
Ao final de 2008, o Governo, através da Anatel, impôs condicionantes na compra da Brasil Telecom pela Oi. Dentre elas, o apoio à indústria nacional às fronteiras e localidades distantes e ao modelo de satélites brasileiro. É inexorável a prestadora ter que utilizar capacidade satelital. A Oi e a Telefônica têm projetos em DTH para direct to home TV.
Há demanda no País para Banda X, de uso militar – isto sem falar na proteção do pré-Sal – e para a Banda L, de uso no controle do tráfego aéreo. A perspectiva de uma parceria público privada para um SGB representa uma oportunidade, inclusive para diminuir os custos do US$/MHz espacial. Enquanto o SGB não se materializa, o plano B será "ir tocando a vida".
"O Brasil não quer ressuscitar a Telebrás".
Os encantos da média altitude
O outro impacto do seminário foi o projeto da empresa O3B, uma iniciativa do "entrepeneur" milionário norte-americano Greg Wyler. O empreendimento "Broad Band Dissemination with multi-spot satellites in Ka band", o nome diz quase tudo, tem capitais da Liberty Global, do HSBC (Hongkong and Shangai Banking Corporation) e da Google.
Coube ao homem de marketing da O3B, o colombiano Omar Trujillo, apresentar durante o 9º Seminário Internacional de Satélites o projeto multifeixe (1,2 Gbit/s cada feixe) em Banda Ka, inicialmente com oito satélites em órbita média (MEO) a oito mil km da Terra e cobrindo até 45º N e S do Equador.
Com tecnologia sofisticada, da Thales Alenia Space, e relembrando os tempos do sistema Iridium, os satélites MEOs da O3B se movem em relação ao solo e necessitam de sistemas de rastreamento e handover em terra. Omar Trujillo prometeu que os preços praticados (US$/MHz) "seriam altamente competitivos", para grandes operadoras e para aplicações de backhaul.
O sistema mundial da O3B terá sete zonas de trabalho, cada uma dotada de seu teleporto, com três antenas redundantes de 7.3 m de diâmetro. Um desses teleportos está previsto para o Rio de Janeiro. A modulação será PSK (phase-shift keying), variável conforme a situação da meteorologia. O sistema se volta para quatro segmentos de mercad prestadoras e corporações; backhaul celular; consumidor e PME (pequena e média empresas); e serviços verticalizados. A operação inicial, prevista para 2011, se voltará para os dois primeiros segmentos.
Dois dias informativos
A Converge, com Rubens Glasberg, atuou como host e na coordenação do evento. Representantes programados, da Colômbia (satélite Restrepo) e Venezuela (satélite Venesat-1, Simon Bolivar, lançado em 29/10/2008 da China), não puderam comparecer. O jornalista Fernando Paiva, da Converge, coordenou algumas das sessões.
O 1º dia do evento contou com a apresentação de João Carlos Albernaz, da Anatel, com novos critérios de licitação para a exploração de satélite brasileiro que deverão acelerar o processo, mas mantendo um preço mínimo, como manda o TCU (Tribunal de Contas da União). Túlio Calderón, da Invap SE, mostrou que a construção de satélites (small GEOs, LEOs) na Argentina é parte do esforço hightech do país, que inclui radares, satélites e reatores nucleares. Ana Bizberge, da Convergência Latina, deu dados gerais sobre o setor satelital na América Latina.
Duas mesas de debates deram oportunidade a que patrocinadores discutissem as filigranas do mercado. Dentre as informações recolhidas: China, Índia e Rússia estão no mercado de pequenos GEOs (geoestacionários). O programa Argentino de small GEOs é da ordem de US$ 600 milhões. Há mais de 15 anos Brasil (Inpe) e Argentina (Invap) colaboram em LEOs (baixa órbita), com boas perspectivas para produção de pequenos GEOs.
A pirâmide do consumo, no Brasil, passou a incorporar as classe C e D. A TV por assinatura (com alta definição), as aplicações off-shore, e a banda larga para projetos sociais serão alavancadoras do mercado satelital. Empresas estão começando a perceber as vantagens do uso de satélites em comunicações corporativas, mesmo em regiões urbanas densamente povoadas.
Manoel Almeida, como vice-presidente do Sindisat (Sindicato Nacional das Empresas Operadoras de Satélites), falou de um “Projeto de Proposta de Política Pública”, a ser entregue ao Governo, para o atendimento em banda larga via satélite de usuários localizados na zona rural e em localidades distantes dos centros urbanos. A iniciativa contou com o apoio da FEBRATEL (Federação Brasileira de Telecomunicações).
Ao término do 1º dia, a SSPI (Society of Satellite Professionals International, chapter Brasil), com Mauro Wajnberg (presidente), diretoria e comissão julgadora, premiou o talento de Carlos Zylberman, da via Embratel, pelo seu receptor híbrido de TV por assinatura nas Bandas C (canais livres) e Ku (pagos); e Antonio Gonçalves, da Oi, pelo enlace para a Marinha na Estação Comandante Ferraz, que marca a presença brasileira na Antártica, desde de 1984.
O 2º dia, além das palestras já citadas da AEB e da O3B, e do debate respectivo, contou com apresentação de Marcos Mahler, da Atech, sobre aplicações de satélites para uso aeronáutico. No CNS (communications, navigation, surveillance), ATM (air traffic management) radares ainda são muito utilizados, mas os satélites (Inmarsat, Iridium, GPS, Glonass) serão cada vez mais solicitados. Terão "aumentação" da sua precisão por meios auxiliares, baseados em aeronaves, terra e satélites.
O evento terminou com a estimulante apresentação de Lincoln Oliveira (vice-presidente Star One), que debateu a chegada do 3D-HD (imagens tridimensionais de high definition) para cinema e DTH (direct to home) via satélite; o backhaul com uso de SCPC – single carrier per channel – ou de VSAT – very small aperture terminal – para celular; as aplicações marítimas, via Banda Ku; e as interrogações sobre o uso da Banda Ka em regiões tropicais, sugerindo que o Cetuc-RJ poderia fazer um estudo de viabilidade técnica, tal como no passado efetuou para o projeto Iridium.
(continua)