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Convergência: utilities com Smart Grid e PLC e operadoras de telecomunicações podem somar – I
24/09/2007 20:29 :: João Carlos Fonseca

Por ocasião do VIII Seminário Nacional de Telecomunicações da Aptel, realizado em Brasília (DF), a TELEBRASIL entrevistou Dymitr Wajsman, diretor da entidade que representa as telecomunicações nas empresas de infra-estrutura. Em foco, o relacionamento entre telecomunicações e utilities de energia. Ambas chegam com novas tecnologias ao domicílio do cliente, em suas respectivas redes.

A Aptel, presidida por Luiz Jatobá, tem assento nos Conselhos Fiscal e Consultivo da TELEBRASIL.

A Associação Nacional de Empresas Proprietárias de Infra-estrutura e de Sistemas Privados de Telecomunicações realizou seu seminário anual, o VIII da série, de 19 a 21 de setembro, na sede da Eletronorte, em Brasília (DF), "consoante à sua missão de estimular a modernização das empresas associadas através da utilização de sistemas privados de comunicação e de tecnologia de informação por ele suportados".

Reza ainda o convite, subscrito por Dymitr Wajsman, e "bem como incentivar o uso das infra-estruturas associadas a tais sistemas no desenvolvimento dos sistemas públicos de telecomunicações". O objetivo principal do seminário é ser "um fórum de discussões e fonte de informações sobre o uso de tecnologia e serviços de telecomunicações na formação de sistemas privados nas empresas, bem como alternativas para seu atendimento".

Dymitr Wajsman é diretor de Capacitação e de Novos Negócios da Aptel e chairman da associação internacional UTC – Utilities Telecommunications Council dos EUA. A entrevista transcorreu em clima cordial e, por prévio entendimento, não se abordou os assuntos Eletronet e de políticas governamentais para os setores de infra-estrutura. O seminário da Aptel contou com o patrocínio de empresas que também são associadas da TELEBRASIL, tais como CPqD, Damovo, NEC, Alcatel-Lucent, Motorola, Furukawa, Globalstar, Nokia Siemens, Nortel e Ericsson.

Dentre as palestras, a de Heden Cruz, gerente geral de Telecomunicações da Petrobras, com Telecomunicações, elemento crítico para instalação, operação e manutenção nas empresas de utilidade (petróleo, gás e energia elétrica); a de Dymitr Wajsman, com " compartilhamento de Infra-estrutura entre Setores de Telecom e Energia Elétrica "; a de Flávio Roberto Antonio, da Eletronorte, respondendo à interrogação se Prestar serviços de telecomunicações em empresas transmissoras de energia elétrica ainda é um bom negócio?; e a de Iran Lima Gonçalves, da Diretoria de Negócios e Soluções do CPqD, com utilização da Tecnologia AdHoc pelas utilities para viabilizar o Smart Grid.

ENTREVISTA

TELEBRASILA que se propõe a Aptel?
Dymitr – A Aptel reúne utilities – em bom português, empresas de serviços públicos – que possuem sistemas privados de telecomunicações. Na verdade, é uma associação de telecomunicações específica para as empresas nas quais telecomunicações constituem um elemento crítico para sua operação.

TBHá quanto tempo acontecem os seminários da Aptel?
Dy – Este é o VIII Seminário Nacional de Telecomunicações. É um evento que tem crescido de importância e vem ganhando o reconhecimento das empresas como um fórum de discussões e troca de experiências do setor de energia elétrica, petróleo, gás e por aí.

TBO que é Power Grid?
DyPowert Grid (malha de energia) significa, basicamente, rede elétrica. No contexto da Aptel, a rede elétrica é um meio pelo qual transitam as telecomunicações. A malha de energia é um elemento de infra-estrutura que precisa ser controlado e automatizado, utilizando telecomunicações e TI (tecnologia da informação) para fins empresariais e de melhoria de serviços junto aos usuários.

TBE o Smart Grid?
Dy – É uma denominação para sistemas de telecomunicações que estão sendo estudados na Europa, nos EUA (lá se denominam Inteligent Grid ) e em outros países para a rede elétrica ou qualquer fluxo industrial. O Smart Grid inclui elementos de controle automatizados e telemedidos que incorporam determinado grau de inteligência. Na rede elétrica, o Smart Grid envolve infra-estrutura de medição automática, corte por inadimplência e religamento de rede elétrica.

TBO conceito de Smart Grid vai até o cliente final?
Dy – Sim. O Prêmio Apex - Aptel de Excelência (N.R. Motorola patrocinou) premia a empresa que melhor utiliza tecnologia para seus fins empresariais. Foi premiada a Ampla (concessionária de energia elétrica no Estado do Rio de Janeiro) por ter incluído características de rede inteligente em sua rede.

TBComo assim?
Dy – A Ampla tinha um alto índice de perda de energia, por furto ou por perda técnica, e, em dois anos, reduziu em 20,37%, e com a montagem de uma rede diferente (N.R. Rede de Distribuição Aérea Transversal – DAT) dotada de medidores inteligentes nos postes (Leitura Automática de Medidores – AMR).

TBAinda há mais?
Dy – Sim. O sistema utilizado na Ampla tem uma LAN (local área network) que utiliza tecnologia Wi-Fi (sem fio), PLC (power line commmunication) para transferir SMS (short message service) para centros de controle. Foi desenvolvido um software para controlar os usuários, visando cortar o fornecimento dos inadimplentes e religar quando quitam sua dívida.

TBDeu resultado?
Dy – Com essas medidas, a Ampla, em pouco tempo, reduziu suas perdas em 20,37% (N.R. equivalente a um ganho operacional acumulado até 2007 de R$ 2,8 milhões). A Ampla utilizou diversos níveis de atuação e várias tecnologias e por isso foi premiada com o prêmio Apex.

O Smat Grid, a malha inteligente das empresas de energia elétrica e as operadoras de telecomunicações são discutidos.

TBAgora, duas perguntas sobre o Smart Grid e que têm a ver com o setor detelecomunicações ...
Dy – Pois não.

TBO Smart Grid é só para prestar serviços internos para a utlility ou também é para prestar outros serviços (de telecomunicações) para o cliente, já que a rede está lá na casa dele?
Dy – E qual seria a segunda pergunta?

TBComo o setor de telecomunicações pode participar ou somar com as utiliities referente ao Smart ou Inteligent Grid?
Dy – Muito bem, vamos por partes. Na verdade, o Smart Grid é a utilização da tecnologia de telecomunicações para melhorar o desempenho das utilities junto a seus clientes. Como isso acontece? Se você evitar fraudes e colocar mais "usuários pagantes" na rede, reduz-se o custo para seus clientes. Se você reduz as fraudes, reduz-se o custo para os clientes que pagam.

TBIsso é o ângulo da empresa de energia elétrica ...
Dy – Exatamente. Tal redução de custos só é possível utilizando telecomunicações.

TBEntão, telecomunicações são importantes para as utilities ?
Dy – As telecomunicações são um elo importantíssimo. Nós a chamamos de telecomunicações críticas.

TBCriticas?
Dy – Sim. Tudo que você faz em uma empresa de energia elétrica ou de petróleo, gás, enfim, em qualquer empresa de serviços públicos, é apoiado nas telecomunicações. Sem telecomunicações nada funciona. Hoje, tudo é remoto, tudo é controlado.

TBMuito bem, vamos à segunda pergunta.
Dy – Como as empresas do setor de telecomunicações podem participar ou somar com as utiliities referente ao Smart ou Inteligent Grid?

TBSim. As utilities poderiam prestar serviços de telecomunicações?
Dy – Eu não estou vendo isso. Esse pensamento já ocorreu lá nos idos de 1996/1997, quando as empresas de energia elétrica pensavam em abrir grandes empresas de telecomunicações. Depois, com o advento e melhoria da tecnologia PLC, as utilities pensaram que elas poderiam prestar serviços de telecomunicações.

TBIsso é mundial?
Dy – Mundial. Aliás, no Brasil se repetiu o fenômeno. Várias empresas tentaram fazer subsidiárias para prestar serviços de telecomunicações.

Discute-se a tecnologia PLC ( Power Line Communication ) que faz a informação chegar à casa do cliente pela rede de energia elétrica.

TBAs utilities usam a tecnologia PLC para chegar à casa do cliente?
Dy – PLC é apenas uma tecnologia como qualquer outra. Não há diferença nenhuma em relação à outra trecnologia.

TBEntão, o uso da tecnologia PLC depende do momento?
Dy – Sim. Depende da situação. Você pode ter um medidor inteligente com PLC, para coletar seus dados. Você pode ter um medidor inteligente com WiFi, para também coletar seus dados. Você pode coletar seus dados de qualquer forma.

TBApenas isso?
Dy – Bom, no momento que você tem um medidor na casa do cliente ligado por WiFi ou por PLC, você pode estender os serviços dados a esse cliente trazendo-lhe telefonia e dados.

TBSim, mas é preciso lembrar que telecomunicações é um "sistemão" mundial em que todo mundo pode (em tese) acessar todo mundo. Isso é até representado por uma nuvem ...
Dy – É claro que esta nuvem que você descreveu não está contida dentro da empresa de energia.

TBEntão, não há nenhum problema regulatório envolvido?
Dy – Não vejo nenhum problema regulatório envolvido, ao se fazer serviços internos à empresa.

TBInternos sim, mas e a nuvem?
Dy – Para os serviços externos, a tendência mundial é que as utilities se associem a empresas de telecomunicações para realizarem esse tipos de serviço.

TBUma questão de interesse mútuo?
Dy – Sim.

TBEntão, não há problema?
Dy – O problema todo reside numa dicotomia.

TBUma dicotomia?
Dy –Sim. As empresas de telecomunicações desejam receber uma rede pronta (a rede elétrica) para instalar seus terminais nas dependências do cliente.

TBE as utlilities?
Dy – Já para estas só interessam instalar esses terminais quando houver interesse para a automação de sua rede de energia, ou seja, quando houver Smart Grid.

Prossegue a entrevista, que toca nos assuntos da disputa pelo cliente de telecomunicações e na inclusão social.

TBConclui-se da dicotomia?
Dy – Bom, enquanto não houver um acordo entre essas duas vertentes – empresas de energia e operadoras de telecomunicações –, as empresas de energia vão fazer aquilo que irá melhorar sua performance técnica e as operadores de telecomunicações vão procurar meios de instalar os melhores sistemas a seus clientes, sem utilizar, a meu ver, um meio muito interessante.

TBO que acontece no restante do mundo?
Dy – Nos EUA, diversas empresas já ultrapassaram esse estágio.

TBUm exemplo?
Dy – Uma grande utility no Texas está instalando uma rede de telecomunicações que vai prestar serviços aos clientes. É uma tendência mundial com casos de sucesso e outros de insucesso.

TBFale-nos dos casos de sucesso ...
Dy – As utilities que se associam a operadoras de telecomunicações têm mais chances de sucesso, a longo prazo.

TBE no Brasil?
Dy – Está acontecendo algo que o Brasil precisa muito. As empresas de energia elétrica estão trabalhando muito o lado social. Hoje, existem experiências como o caso Procempa no Rio Grande do Sul, que, junto com a empresa de energia, está fazendo experiência na grande Porto Alegre.

TBFale mais sobre empresa de energia ajudando na inclusão digital.
Dy – No Brasil, o que se começa a ver é o uso das tecnologia PLC e outras que podem trafegar sobre as redes de infra-estrutura para a inclusão social. É uma área onde o Governo pode ser um player .

TBEntão se trata de usar PLC para o velho problema da última milha?
Dy – Sim. No Brasil, a tecnologia PLC está sendo vista como uma das tecnologias para solução da última milha. É ela que, "mixada" com fibras ópticas ou Wi-Fi, pode ser empregada para missões em aplicações de cunho social.

TBSeriam empresas de energia elétrica de telecomunicações somadas?
Dy – O melhor caso de inclusão está situado em Porto Alegre. Participam quatro entidades: a CEE – Companhia de Energia Elétrica –, com suas fibras ópticas; a Procempa, que faz o processamento de dados da Prefeitura com a tecnologia de TI; o Ceta-Senai RS, que trouxe a tecnologia de medicina de longa distância; e a UFRS, com o know-how acadêmico. Essas quatro entidades desenvolveram um grande projeto envolvendo fibras ópticas, PLC e wireless. Integraram um bairro chamado Restinga, a 40 quilômetros de Porto Alegre.

TBQuem dá a última milha é o PLC?
Dy – Sim. O erro que se fazia era pensar que determinada tecnologia podia ser dominante perante as outras. Hoje, o entendimento é que PLC no Brasil e no mundo – vou fazer uma palestra na Alemanha sobre isto – é uma possibilidade rápida de se fazer uma inclusão social.

A entrevista passa a tratar de entendimento entre Aptel e TELEBRASIL referentes ao Smart Grid e inclusão digital.

TBComo jornalista, tenho curiosidade sobre a viabilidade de uma aproximação, digamos um “memo de entendimento”, entre Aptel e TELEBRASIL enfocando o problema da inclusão digital e do Smart Grid?
Dy – É totalmente viável.

TBÉ viável, mas é também desejável?
Dy – Com certeza. A Aptel é uma entidade que representa as telecomunicações das empresas de energia, gás e petróleo. Elas utilizam as redes de telecomunicações públicas das operadoras para prestarem seus serviços. Essas utilities têm interesses e negócios com as operadoras de telecomunicações.

TBElas são provedoras umas das outras ...
Dy – Sim. Então, em princípio, não há nada contra para haver entendimentos. Obviamente, uma associação é uma associação. Ela precisa auscultar seus associados ...

TB... uma Assembéia Geral ou uma pesquisa interna ...
Dy – ... e ver com quem está tratando, definir os parâmetros dos entendimentos e avaliar se há interesse. Por que uma associação pode certamente influenciar, mas ela não define a ação de seus associados. Entre as empresas de energia elétrica e as operadoras de telecomunicações, é normal que hajam pontos em que elas concordam e outros sobre os quais podem discordar.

TBAs empresas são clientes umas das outras ...
Dy – Sim. Elas podem utilizar, de maneira complementar, as redes das outras. Isso é extremamente favorável.

TBIsso é concórdia?
Dy – Sim. É a concórdia, mas também há pontos de discórdia.

Nesse momento, a entrevista passou a discutir o problema do preço cobrado pelo uso de dutos e postes.

TBUm exemplo de discórdia?
Dy – O compartilhamento da infra-estrutura.

TBDutos e postes?
Dy – Uns acham que têm o direito de usar a infra-estrutura dos outros por um determinado preço que esses outros acham que não é o preço adequado.

TBExistem órgão reguladores, Anatel e Aneel...
Dy – Sim. Está em audiência pública o assunto do compartilhamento da infra-estrutrura. O uso dos postes e dos preços envolvidos. A idéia de consulta pública é fazer uma fórmula de preço. Esse preço regulado pelas agências não está em lei nenhuma, então não sabemos se é legal. Só existe fórmula de preço nos Estados Unidos.

TBComo é regulamentação desse assunto nos EUA?
Dy – A regulamentação sobre a infra-estrutura nos EUA sofre de uma distorção. Só a FCC que trata de telecomunicações regula. A FERC ( Federal Energy Regulatory Commission ), a Aneel de lá, não regula o preço do uso de poste. Na Europa, tudo é negociado e não há discórdia. A Nota Técnica que foi emitida pela Agência sinaliza a utilização do modelo norte-americano.

TBNo Brasil e nos EUA, a regulamentação sobre compartilhamento de infra-estrutura difere?
Dy – Sim. Nos EUA, quem entra na justiça sobre o preço cobrado pelo uso de infra-estrutura são as empresas de energia elétrica e no Brasil são as empresas de telecomunicações.

Finalizando ...

Dy – Pela Diretoria da Aptel e, obviamente, consultados nossos associados, posso dizer que temos o máximo de interesse em falar com os associações e as empresas de telecomunicações e verificar quais os pontos realmente necessários onde devam ocorrer acordos.

TBComo isso poderia ser feito?
Dy – Isso é fácil de fazer. As associações reúnem suas próprias diretorias e verificam que pontos devem ser objeto de acordo e consultam seus associados.

TBEntão, as empresas de energia, em relação às de telecomunicações, mantêm uma posição pragmática?
Dy – As empresas de energia elétrica estão utilizando cada vez mais os meios de telecomunicações para melhorar seu desempenho, em seu core business. Todas as sobras de rede, enfim, tudo que puder ser aplicado em negócios de telecomunicações, as empresas de energia vão certamente buscar parceiros.

TBE as empresas de telecomunicações são um parceiro natural ...
Dy – Exato e as associações têm como finalidade mediar um acordo dentro dos parâmetros que já comentei na entrevista.

TBAlguma coisa que queira acrescentar?
Dy – Não, apenas muito obrigado.


 

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