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Ricardo Saur: “o mais importante na convergência é o lado educacional”
19/03/2007 15:53 :: João Carlos Fonseca

Ricardo Saur, diretor-executivo da BRASSCOM, uma organização sem fins lucrativos, que congrega empresas visando exportar software e serviços brasileiros, aceitou falar de TIC, trazendo sua visão pessoal sobre software, educação e o fenômeno da convergência, durante a I Conferência BRASSCOM, no Rio de Janeiro.

Ricardo Saur é mestre em Utilização de Computadores pela Universidade de Stanford, ex-secretário executivo da Capre, de 1973 a 1979, e ex-presidente do Serpro, de 1986 a 1988. Hoje é diretor-executivo da BRASSCOM, uma organização sem fins lucrativos, inspirada na NASSCOM da Índia, que congrega empresas visando exportar software e serviços brasileiros. Durante a I Conferência BRASSCOM, no Rio de Janeiro, aceitou falar de TIC, trazendo sua visão pessoal sobre software, educação e o fenômeno da convergência.

TELEBRASIL – Como a indústria de software se relaciona com a TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação) no Brasil?
Ricardo Saur – Da mesma forma que a "TI" (Tecnologia da Informação) se relaciona com o "C" (Comunicação). De maneira cada vez mais convergente. O “C”, hoje, não é só comunicação de dados ou de voz e envolve também televisão. A digitalização geral do "C" e da "TIC" faz com que o "C" se aproxime cada vez mais da "TI". O telefone, originalmente totalmente analógico com discagem, hoje em dia é de pulsos e agora a voz é digital. Essa digitalização aumenta a convergência.

T – Quer dizer que “TI” e “C” são da mesma natureza?
S – Ainda são dois mundo bem separados. Têm muito menos convergência e ação conjunta do que deveriam ter. As comunicações no Brasil, até recentemente, eram tipicamente uma coisa estatal. Era algo razoavelmente monolítico, passando pela forma pela qual as empresas estatais eram estruturadas. A Embratel e a Telebrás eram organizadas pela sua própria origem militar. Já com a questão do software não foi bem assim.


T – O que seria o software?
S – Em termos simples, software é você transformar qualquer processo que você tenha, seja matemático ou de negócios, numa forma tal que uma máquina de processamento possa entendê-lo.

T – E como ele funciona?
S – Para a grande maioria das aplicações, o software requer uma interpretação. Você interpreta uma realidade, que é aquela que está colocada no algoritmo. Seja simples ou complexo, e que tenha nomes bonitos ou sopa de letrinhas – o que todo mundo faz –, o conceito é sempre o mesmo. A sopa de letrinhas também existe na área de comunicações. Cada um faz os seus jargões. É algo horrível. Como mero cidadão mortal, eu acho isso o fim. Mas também não posso ignorar o fenômeno.

T – No que TI e C diferem?
S – São conceitos completamente diferentes. O software antes de tudo requer cabeça. Já as comunicações requerem uma infra-estrutura. Você não tem como fazer comunicações sem ter uma infra-estrutura instalada. O software é uma coisa que requer muito menos investimento, que, a cada dia, é menor, porque o custo de fabricar computadores, isto é, a máquina, caiu.

T – Como o Brasil se situa no mundo do software?
S – Muito bem. Você pega áreas em que a gente se desenvolveu muito bem como, por exemplo, o setor financeiro. Todos os organismos mundiais – do Banco Mundial ao o FMI – reconhecem o sistema brasileiro. Ele é capaz de fazer a compensação de cheques no País todo. O sistema de pagamento do Banco Central é admirado; toda a semana tem uma delegação estrangeira nos visitando.

T – A que se deve tal sucesso?
S – São duas coisas que se conjugaram. Primeiro que o Brasil desenvolveu um conhecimento da chamada caixa preta. Abriu-se a caixa preta na época da reserva de mercado de informática, para as máquinas pequenas, que é o que se usa hoje em dia. Nessa ocasião, se criou um monte de gente com um conhecimento que você nem sempre encontra em outros países. A Argentina, por exemplo, não tem o conhecimento sobre sistemas operacionais existente no Brasil.

T – O Governo federal usa a TIC para duas coisas, para o Imposto de Renda e nas urnas eletrônicas. Por que ele não faz o mesmo para a educação e a segurança, por exemplo?
S – Hoje em dia, você não encontra no mundo nada parecido com o sistema eleitoral brasileiro. Onde 120 milhões de votos são todos computados em menos de 10 horas; os resultados são anunciados com segurança em uma ou duas horas; e principalmente todos aceitarem o resultado como válido e idôneo...

T – Há serviços básicos que pela Constituição o Estado tem que prestar como educação, segurança, saúde etc. Por que a informática não consegue entrar lá?
S – Isto é uma coisa bem complexa. Existem vários lados dessa questão. Há o lado do Brasil que seria a Bélgica (lembra da expressão Belíndia?), dito rico, que não deve nada a ninguém. O brasileiro passa mais tempo usando Internet banda larga que o japonês. Este é um dado medido internacionalmente. Somos um país conectado por muita gente. Só que muita gente em termos de números, mas pouca gente em termos de renda.

Nesse ponto da entrevista, é entregue ao entrevistado um exemplar do documento “(Tele)Comunicações 2015 – Contribuições para o Aperfeiçoamento do Modelo”, produzido pela TELEBRASIL e pelo SINDITELEBRASIL. É mostrada a lâmina que correlaciona densidade geográfica da população e renda familiar e que resulta em quatro quadrantes (urbanos com alta e baixa renda e rural com alta e baixa renda). A entrevista continua.

T – Como ampliar a oferta da TIC para as classes menos favorecidas, como para a educação?

S – Cada coisa em seu devido lugar. O ensino fundamental é uma atribuição dos municípios; o ensino médio, dos estados; e a educação de alto nível, do Governo federal. A cobrança tem que ser feita nos três níveis e não a um só.

T – Sim; mas como ampliar a oferta da TIC para as classes menos favorecidas?
S – O que tem havido é uma gradual aceitação de convergência para coisas novas. Por exemplo, o MEC evoluiu muito nos últimos anos, mais do que já tinha feito no passado. Ele era um dos grandes ausentes desse debate, como no ensino à distância, que usa TIC. Aí tem que ter o T, o I e o C, senão não ocorre o ensino à distância. É uma comunidade carente que tem um centro comunitário com banda larga. O que faz isso funcionar é o TIC. Mas, isso é pouco em relação ao tamanho do problema.

T – Por quê?
S – Resolver um problema no Brasil não é igual a resolver um problema na Bélgica ou no Chile. Até acho que o Estado deva estar presente, mas não será na medida em que a gente quer ou gostaria. Tudo isso vai muito da nossa condição política. Passa pela capacidade de nossa representatividade, pela capacidade de se votar direito. Em minha opinião, nós temos muito ainda que caminhar na questão do aprendizado democrático.

T – A solução passa pelo Governo?
S – Sim, mas não é apenas uma coisa de governo. É de toda a sociedade brasileira. A Sociedade da Informação não pode ser baseada no governo. Você não faz isto de cima para baixo. E também não faz de baixo para cima. Precisa de recursos, de engajar todo mundo no processo.

T – Então, o que falta?
S – Eu acho que falta muita coisa. Mas, o que hoje está começando a acontecer é a responsabilidade social de todos. Na medida em que as empresas, o governo, os órgãos especializados, a imprensa, todo mundo começa a tocar nesse assunto, começa a ser um assunto mandatório. Hoje, nenhuma empresa que quer ter uma boa imagem na Bolsa, que quer ter uma boa imagem junto ao público, deixa de se preocupar em ter uma boa imagem social. Há 15 anos, se eu falasse isto para um dono de empresa, ele iria rir de minha cara. “Isto aqui não é casa de caridade, não. Vai embora”.

T – Não se pode cair num chá das caridades cosmético?
S – Aí nós temos que está vigilante, temos que está reclamando, temos que está votando, temos que está reivindicando.

T – Indo para outro assunto, qual a missão da Brasscom? São empresários que querem vender o seu peixe lá fora?
S – Acontece que o peixinho deles pode proporcionar 100 mil novos empregos para o País até 2010, com muito pouco investimento público. E para isso, eu não preciso fazer novas usinas, não preciso poluir nada e nem deslocar gente de empregos. Eu preciso melhorar a educação, para ter as cabeças necessárias. O Brasil pode perfeitamente chegar em 2010 exportando U$ 5 bilhões na área de software. É isso que a Brasscom está tentando fazer. Ela está tentando fazer uma coisa, que foi o que o indiano fez. Vamos conscientizar a sociedade brasileira disso. Tão importante quanto uma Embraer vender avião é a gente vender software para o exterior.

T – Nesse campo estamos atrás da Índia?

R – Muito atrás. Não em qualidade do software. Estamos atrás da comercialização do software. As empresas indianas de dez anos atrás eram do tamanho das empresas brasileiras que hoje estão nessa área. Hoje, elas são do tamanho das gigantes mundiais (HP, IBM etc.). Nós mantínhamos um modelo arcaico, baseado em desejo de vender software. O que se passou a querer vender é serviço e não produto de software. Aí a Brasscom foi criada, porque algumas empresas se conscientizaram que alguém deveria levantar essa bandeira e fazer esse negócio rolar. É claro que era interesse delas, elas nunca esconderam isso.

T – O serviço de call center seria um bom negócio para vocês?
S – O serviço de call center precisa de software especializado, mas é um negócio que envolve uma série de outras variáveis. Inclusive e principalmente a exportação de línguas. É muito complicado para exportar. O suporte para o call center depende de gente que domine uma segunda língua.

T – O senhor gostaria de falar sobre o computador de U$ 100?
R – Eu não me julgo suficientemente informado para fazer qualquer tipo de comentário. Todo mundo quer esse computador. Eu não o vi. Acho que existe um projeto em curso. Vamos ver se vai dá certo. O projeto que a Brasscom está propondo é de vender U$ 5 bilhões em software até 2010. Pode dar certo. Pode até não dar certo, mas é algo que tem que ser feito. É algo que não tem nada a ver com o mercado interno. São 100 mil novos empregos gerados só para o mercado externo. O mercado são todos os compradores de software do mercado externo.

T – Como promover a convergência entre o T, o I e o C?
S – Não acredito que o Governo federal vá forçar qualquer coisa, mas as convergências naturais acabam se encontrando, mais cedo ou mais tarde. Nesse momento, a convergência mais importante para nós é a convergência do lado educacional. Preparar gente. O que a gente vê na frente, entre nós, hoje, daria para chegar lá, naqueles U$ 5 bi de exportação com 100 mil empregos, é a educação. Se não houver uma formação maciça de gente, não vamos chegar lá. É claro que também se precisa de outras coisas.

T – Como, por exemplo?
S – Um exemplo típic nós precisamos de alguns incentivos fiscais prévios. Não no sentido de subsídio. De jeito nenhum. Mas o que a gente não pode é pretender competir com países como Índia, Argentina e México pagando o dobro ou o triplo de contribuição fiscal que é paga aqui.


 

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