A sigla IMS chega ao Brasil com discurso promissor – II
11/07/2006 09:03 :: João Carlos Fonseca
O I Fórum IMS, organizado pela Provisuale, ocorrido nos dias 28 e 29 de junho, no Hotel Transamérica, em São Paulo, reuniu cerca de 200 especialistas e executivos de fornecedores, consultores e das operadoras, com o patrocínio de 14 empresas do ramo. O tema foi a IP Multimídia Subsystem, uma arquitetura frente a um mercado da convergência que se estabelece a passos largos.
O I IMS Fórum contou com 13 palestras técnicas e com 18 debatedores, repartidos em quatro painéis, dois dos quais coordenados pelos jornalistas Graça Sermoud (Decision) e Ethevaldo Siqueira (Telequest) e os demais, pelos executivos José Luis Oliveira de Souza (Teleco) e Eduardo Levy Cardoso Moreira (Virtus). Patrocinaram o I IMS Fórum as empresas Accenture, Nokia, Cisco System, Ericsson, HP, Juniper, Nortel, Siemens, Trópico, CPM, CPqD, Huawei, NEC e Tekelec.
CPqD: perspectivas IMS
Em sua palestra, Francisco Moreto, diretor do CPqD, conceituou o IMS (IP multimidia sub-system) como uma arquitetura com interfaces padronizadas e abertas para entrega de voz e multimídia em diversos tipos de acesso com e sem fio. Com funções distribuídas em camadas – serviço, controle, transporte –, o IMS não apresenta restrição quanto ao tipo de terminal utilizado pelo usuário e permite a integração com os serviços atualmente ofertados pelas redes públicas de telefonia fixa e móvel.
O acesso ao IMS é "agnóstico", ou seja, pode ser feito via xDSL (digital subscriber line), redes de dados móveis (GPRS, EDGE, EV-DO), cable modem (TV a cabo), Wi-Fi, ou WiMax. Explicou o palestrante que a arquitetura IMS foi gerada no contexto dos trabalhos do 3GPP (3rd Generation Partnership Project) em comunicações móveis e foi baseada em vários padrões e protocolos da Internet definidos pelo IETF (Internet Engineering Task Force). A arquitetura IMS foi adotada por diversas entidades internacionais que padronizam a telefonia fixa, como a ETSI (European Telecommunications Standard Institute) e a ITU (International Telecommunication Union); as comunicações móveis, como o 3GPP2 (CDMA2000), OMA (Open Mobile Alliance) e ATIS (EUA), bem como de TV a cabo (Cable Labs).
O palestrante destacou os principais motivadores para o uso da arquitetura IMS pelas operadoras de telecomunicações. Em primeiro lugar, a geração de novas receitas provenientes da oferta de serviços de voz, multimídia e de conteúdo. Em segundo, o reposicionamento da operadora no cenário dos negócios, tendo em vista a convergência fixo-móvel, a “comoditização” dos serviços de voz, a consolidação dos serviços de banda larga e a redução de custos (Opex e Capex).
Francisco Moreto ressaltou as possibilidades de interligação de uma estrutura IMS com as atuais redes TDM de telefonia, e apresentou os cenários básicos para a migração dessas redes rumo à arquitetura IMS. Um primeiro cenário contempla as eventuais necessidades das operadoras incunbents, relativas à substituição e à expansão dos equipamentos em sua atual PSTN (Public Switched Telephone Network), mantendo os mesmos serviços disponibilizados por estas redes. É o cenário da “emulação” dos serviços da PSTN. Um outro cenário distingue a oferta de serviços multimídia, além dos serviços de voz. É o cenário de “simulação” dos serviços da PSTN. Acentuou Francisco Moreto que a velocidade com que esta migração rumo ao IMS ocorrerá no Brasil dependerá das perspectivas do nosso mercado consumidor, aí incluídos as condições de sua expansão, os aspectos culturais e sociais e da renda disponível e dos estágios dos processos empresariais e operacionais dos provedores de serviços atuantes no País. Esclareceu o palestrante que “as operadoras convivem com um mercado de novos serviços voltados basicamente para as classes A e B, com uma penetração de banda larga da ordem de 10% do total de terminais fixos e com aspectos legais, fiscais e regulatórios influentes. Concluindo, afirmou que “em relação ao IMS, a recomendação é para estudos de cenários com abordagem socioeconômica, análises de riscos e de sensibilidade das variáveis envolvidas”.
Na opinião do engenheiro Roberto Do Coutto, gerente de Soluções de Mercado do CPqD, e co-palestrante da apresentação, algumas operadoras brasileiras de telefonia fixa já estão dando passos iniciais na direção do IMS. Observa-se uma tendência de queda na receita dos serviços telefônicos ditos “clássicos” que reflete uma mudança sensível no comportamento do mercado consumidor, sinalizada pelo uso maciço dos serviços disponíveis na Internet e pela substituição fixo-móvel. A concorrência na telefonia fixa provém das novas entrantes no mercado de telecom, através dos serviços de VoIP (voice over IP) e também, indiretamente, por outras empresas de TI (tecnologia da informação) e de Internet, como Skype, Microsoft, Google e Yahoo!.
– Ao possibilitar a convergência de serviços, como o fixo-móvel, e a integração com as redes legadas, o IMS é um tema importante no planejamento estratégico das operadoras de telecom – finalizou Roberto Do Coutto.
Accenture: arquitetura de dados IMS
Consultor sênior da Accenture, Jean Villamil disse que a arquitetura IMS, basicamente, é o controle do mecanismo IP (internet protocol) com controle "agnóstico" em relação ao tipo de rede (fixa, móvel, cabo, sem fio). A estrutura horizontal em camadas do IMS não requer estabelecer uma nova rede a cada novo serviço. As organizações não serão mais separadas entre fixas e móveis, e isto acena com corte de custos correspondentes.
Com suas camadas de transporte, controle de serviço e aplicação dos usuários, a arquitetura IMS traz inteligência à rede IP e capacidade da introdução de novos serviços. IMS não significa trocar toda a infra-estrutura existente e sim uma implementação gradual com IP. A arquitetura IMS introduz o HSS (home subscriber system), no qual fica armazenado o perfil do usuário e dos serviços. A arquitetura IMS pode ser vista como uma tecnologia de controle sobre uma plataforma de fornecimento de serviços (SDP), dotando-a de um road map completo.
Jean Villamil enfatizou a identidade dos dados, privados e públicos, num diretório unificado de dados, importante para aplicações como a da comunicação celular fora da região de origem (roaming). A arquitetura IMS e a SDP trabalham juntas para reduzir o Opex (custos operacionais) e o Capex (investimentos). A IMS toma conta do ambiente da rede e a SDP organiza os serviços, incluídos os novos e os legados, dando uma resposta rápida às aplicações.
– A introdução da Internet é a inteligência levada aos terminais, como o Google (browser na Internet), o Skype (comunicação telefônica via Internet) ou o XP da Microsoft (sistema operacional do computador pessoal), utilizando as redes existentes como meio de transporte – resumiu o palestrante.
Huawei: evolução para o IMS
Hugo Palma, gerente de Marketing da Huawei para a América Latina, tratou do caminho da evolução das redes atuais das ILECs (incubents local exchange carriers) para o IMS conforme as recomendações da ETSI (orgão de padronização da União Européia) TISPAN (telecoms and internet converged services protocol advanced networks). O palestrante descreveu como as redes públicas de telefonia PSTN (public service telephone networks) podem chegar ao IMS e referiu-se à troca do sistema de sinalização ISUP (ISDN user part ) pela sinalização IP (internet protocol).
Mostrou ainda a visão da Huawei. As redes legadas em tecnologia TDM (time division multiplex) podem migrar para IP com arquitetura NGN (next generation network) e depois, para IMS (IP multimida subsystem), com elementos de software. Sugeriu que é mais seguro chegar ao IMS via NGN (uma pre-IMS), que já possui uma estrutura horizontal em camadas. As softswiches ou elementos de comutação da NGN (que permitem controlar as chamadas de VoIP) "falam" com o mundo PSTN através de gateways de sinalização e de mídia.
– Num primeiro passo, a softswtich e a CSCF (call section control function) da arquitetura IMS terão interconexão. Depois, a NGN se integrará totalmente na IMS via SIP (session initiation protocol) da Internet – explicou o técnico.
Segundo o palestrante, a Huawei possui todos os elementos para garantir a qualidade de serviço fim-a-fim e o handover entre redes fixas e móveis. No âmbito de novos serviços que a arquitetura IMS pode prover, os usuários pessoais terão, por exemplo, voucher universal e número pessoal de telefone universal; os usuários corporativos terão coisas tais como serviços de rede virtual (VPN) para grupos tanto em operação fixa quanto celular, IP Centrex e discagem ativada pela voz; e os usuários das famílias gozarão de contas unificadas e formação de grupos com serviços virtuais.
A Huawei é um membro ativo nos diversos comitês de padrões abertos com 270 artigos submetidos e 116 aceitos e possui cerca de 2 mil engenheiros engajados em P&D sobre a arquitetura IMS.
Trópico: benefícios da arquitetura IMS
Armando Eduardo Barbieri, da empresa Trópico (10% Cisco, 30% CPqD e 60% Promon), disse que a IMS, um refinamento da NGN (new generation network), é uma arquitetura unificada, organizada em camadas e voltada para serviços. A arquitetura IMS é orientada para o controle de sessões. Explicou que as três camadas da NGN – transporte, controle e serviços – foram preservadas e aumentadas na arquitetura IMS.
A camada de transporte, que tem a interface de terminais e a matriz de comutação, passa a ter SIP (section initiation protocol) para Internet. A camada de controle fica com o controle de chamadas e a camada de serviços adquire o protocol SIP para Internet. Na camada de transporte, o STFC (serviço de telefonia fixa comutada), com comutação de circuitos e acesso, passa para comutação de pacotes IP (internet protocol) e adquire SIP (session iniation protocol) e WLAN (wide area local network). Na camada de controle, a sinalização SS7 (signalling system number 7) passa para CSF (call section control function); e a SCP (service control point) da rede inteligente passa a ganhar SIP nas aplicações em Internet.
Vários serviços podem ser ofertados a partir de um mesmo núcleo da rede. Com a arquitetura IMS, um novo serviço passa a ser representado por um disco óptico CD-ROM que é inserido num servidor com o software da aplicação. Nesse novo mundo, o nome do jogo passa a ser o oferecimento de serviços multimídia sobre uma rede IP, com a voz representando apenas mais um dentre outros serviços.
O palestrante lembrou as realidades do País: a banda larga no acesso ainda é incipiente, parte das centrais de comutação está obsoleta, a NGN (new generation network) é realidade apenas nas comunicações de longa distância e já há plataformas inteligentes no mercado. O palestrante defendeu a idéia que não se deve investir no upgrade das redes TDM (time division multiplex) e sim dar prioridades a novas tecnologias, cujos novos serviços podem trazer aumento de receita para as operadoras.
Explicou para os mais técnicos que, na visão das entidades de padronização 3GPP e 3GPP2, a evolução para a geração 3G de banda larga em arquitetura IMS, nas redes fixas e móveis, seria através de gateway de sinalização e mídia, que efetuam a ponte entre o mundo TDM e o mundo IP.
Nessa solução, toda a chamada teria que ser encaminhada ao gatweway, via sinalização SS7, para ser transformada em SIP, o que traz, no entender do palestrante, sobrecarga ao dispositivo.
– O foco dos investimentos deve ser nas aplicações e não em mídia gateway que equivale a investir em TDM – afirmou o palestrante, que apresentou a "solução Trópico" para servidor de aplicação e de sinalização, cuja característica é a voz caminhar via TDM, enquanto que o controle fica no IMS, gerando economia nos mídia gateway.